quarta-feira, março 01, 2017

TERCEIRO SETOR NA AMAZÔNIA: A SOLIDARIEDADE COMO IDEOLOGIA DE MERCADO!


                                                                        NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.org

“[...] o isolamento mediante a “setoralização” de esferas
da sociedade, e a mistificação de uma sociedade civil
(definida como “Terceiro Setor), representante popular, homogênea
e sem contradições de classe (que em conjunto buscaria
o “bem comum”) e em oposição ao Estado (tido como
“primeiro setor”, supostamente burocrático, ineficiente) e
ao mercado (“segundo setor”, orientado pela procura do
lucro), contribui para facilitar a expansão da hegemonia do capital na
sociedade hoje “.
(Carlos Montaño, em Terceiro Setor: crítica ao padrão emergente de intervenção social.
Ed.Cortez, 2002).

Um amigo muito experiente, viajado e arguto observador, daí porque nada ingênuo, me questionou sobre o que há por trás do terceiro setor, mais precisamente sobre a “coincidência” do enxame de Ongs _ refiro-me a mais de 3 centenas delas _ sediadas no Estado do Amazonas onde, coincidentemente, está a mais extensa biodiversidade do planeta e o solo riquíssimo em minérios. Ainda, são Ongs patrocinadas por grandes investidores estrangeiros desde laboratórios até fundações com interesses variados em pesquisa de matéria-prima. Nos outros estados brasileiros com ênfase no Nordeste, deveras necessitado de pesquisa em projetos para desenvolvimento, não se fazem presentes tais Ongs estrangeiras, curiosamente por que a biodiversidade e o solo não possuem a mesma riqueza da Amazônia? A questão me pegou de surpresa e fui pesquisar, dado que meu trabalho de pesquisadora em experiências sociais positivas que ofereçam soluções aos conflitos sociais de comunidades carentes, me responsabiliza na busca dos   detalhes críticos e verdadeiros, desta intervenção social.

A citação do pesquisador Carlos Montaño, acima, me indicou um ponto de partida. Já há algum tempo percebi na mídia uma quase campanha publicitária, algo semelhante a uma estratégia de persuasão dos movimentos sociais reivindicatórios e locais, objetivando a um apoio quase místico, milagroso, ao terceiro setor como tábua de salvação alternativa, em substituição ao “Estado ineficiente” o primeiro setor, e ao segundo setor ou “políticas de mercado e lucro”. O terceiro setor seria, sob esta ótica de substituição alternativa,  uma saída ideológica de “neutralismo positivo” onde as comunidades pequenas, carentes, (não politizadas obviamente) se  submetem às regras ditadas pelos princípios das Ongs e por ela trabalhariam  tanto como sócias quanto como voluntárias, criando uma rede de ações crescentes nas comunidades, fortificando os interesses de desenvolvimento local, supostamente, entretanto, forçando uma abertura de porta para a industrialização e criação de mão-de-obra adequada, atropelando a cultura e produção local, sem a consciência da comunidade. O efeito desta propaganda é orientar para um mesmo fim e enquadramento, dentro dos objetivos da exploração de mão-de-obra barata, e atendimento dos interesses do patrocinador da Ong  que ali atua. Ainda, divulgam sem esforço por esta rede de informação e apoio da própria comunidade voluntária, a ideia que as Ongs substituam os partidos políticos que não estariam seriamente perseguindo os princípios de levar bem-estar e “desenvolvimento” às pequenas comunidades.

O terceiro setor estaria, nesta região amazônica, disciplinando às comunidades e levando-as à submissão aos interesses estrangeiros  ali assentados, me sugere tal “coincidência” de abundância de solidariedade. Tal fato revela que, lamentavelmente, sob o marketing distorcido da “solidariedade” está embutido o interesse real de forçar um desenvolvimento industrial às pressas no local, atropelando a cultura das comunidades e o claro desrespeito ao meio ambiente. Ainda, sem destacar as leis ambientais brasileiras.
Tão grave quanto este objetivo de considerar os países da América Latina como inevitavelmente fadados a se industrializarem no ritmo necessário aos investimentos estrangeiros, é a ideologia propagandeando a desmoralização da capacidade da população de decidir sobre seus próprios destinos, ou seja, segundo esta ótica capitalista afobada, mostra a história pós revolução industrial que cedo ou trade os países do “Terceiro Mundo” sucumbirão ao processo de industrialização que os investidores decidirem. Daí, tais comunidades “de condenados da Terra” tem mais é que submeter logo à dependência e submissão dos interesses de quem tem o poder do mercado!


  


domingo, fevereiro 19, 2017

DIREITOS HUMANOS: DEFESA DOS DIREITOS DE QUEM?

NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.org

Tenho visto nas redes sociais o bate-boca escandalizado sobre a decisão de indenizar os criminosos presos em condições desumanas. Há uma grande campanha sendo elaborada, contra as conquistas sociais e os direitos humanos, o que considero um erro flagrante contra a democracia. É preciso avaliar com mais cautela e menos paixão tais conflitos. A pergunta para o miolo deste conflitos deveria ser: direitos humanos na defesa dos direitos de quem ou de quais minorias indefesas?
Após a Segunda Guerra Mundial, nos países da Europa, a sociedade ocidental conquistou a ampliação de direitos e benefícios sociais que permitiram maior igualdade de direitos. Nos Estados Unidos esse processo já tinha se iniciado na década de 1930, quando foi criado o New Deal. Fato é que a manutenção do Welfare State ( Estado do Bem-estar social) exigia constante aumento das cargas tributárias no Orçamento, a cada ano mais, sobrecarregando o Estado com tais proteções sociais. No final dos anos 1970, face aos altos custos desta política, os governos ocidentais democráticos, passaram a rever esses benefícios e propor reformulação das políticas econômicas com a limitação ou extinção do modelo de Estado de Bem-estar.
Os governos da primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-1990), na Inglaterra, e de Ronald Reagan (1981-1988), nos Estados Unidos, deram início aos cortes nos gastos públicos e reduziram programas de amparo social a desempregados, imigrantes e minorias carentes. Essas ações obtiveram expressivo apoio da população - grande parte nascida e criada sob o amparo do Welfare State -, que se sentia sufocada com taxas e impostos que limitavam seu estilo de vida pessoal, ou seja, deixar de priorizar o social para priorizar o particular, o individual. Iniciou-se aqui a adesão ao modelo de Estado Enxuto, ou na linguagem popular: sai da minha aba protetora e  vai pra rua te virar, cidadão!

Eric Hobsbawn, apresenta a seguinte reflexão: “Durante as décadas de ouro quase todos os seus elementos [elementos da coesão dos trabalhadores] foram minados. A combinação de (...] pleno emprego e uma sociedade de autêntico consumo de massa transformou totalmente a vida dos operários nos países desenvolvidos, e continuou transformando-a. Pelos padrões de seus pais, e na verdade, se suficientemente velhos, pelas suas próprias lembranças, já não eram pobres. Vidas tmensuravelmente mais prósperas que qualquer não-americano ou não-•australiano jamais tinham esperado eram privatizadas pela tecnologia do dinheiro e a lógica do mercado: a televisão tornava desnecessário ir aodo dinheiro e a lógica do mercado: a televisão tornava desnecessário ir ao jogo de futebol, do mesmo modo como TV e vídeo tornaram desnecessário ir ao cinema, ou os telefones substituíram as fofocas com amigos na praça ou na feira. Os sindicalistas ou membros de partidos que outrora iam às assembleias locais ou reuniões políticas porque, entre outras coisas, isso era também uma espécie de diversão ou entretenimento, agora podiam pensar em formas mais atraentes de passar o tempo, a não ser nos casos excepcionais dos militantes [...]. A prosperidade e a privatização destruíram o que a pobreza e a coletividade na vida pública haviam construído”...  H0BSBAWM, Eric. Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 300-1.

A situação descrita por Hobsbawm, à qual podemos chamar de "formação da sociedade de massas", é a que prevalece hoje em todos os países ocidentais e ditos democráticos: a exacerbação do indivíduo em relação à sociedade. A sociedade como integração de indivíduos que se relacionam, essencialmente, no âmbito do consumo de mercadorias. Coincidindo com este momento, a crise do welfare-state comprometeu o crescimento do consumo. Para manter o padrão de vida pautado em relações de troca, os recursos financeiros necessários precisam ser obtidos de novas fontes. Para dar conta dessa tarefa, surge nos anos oitenta um novo liberalismo ou o neoliberalismo, cuja política econômica é a de enxugamentos sociais e limitação dos direitos humanos universais, por onde se conflitua a noção de cidadania, que se configura de formas diferentes num mesmo país. Onde o welfar-estate se constituiu mais fortemente (nos países escandinavos, por exemplo), manteve-se um certo nível de direitos e deveres respeitados. Nesses lugares, os cidadãos continuam lutando para conquistar algo além da subsistência, agora pautados por outra lógica: o bem-estar individual.  Já nos países com economias dependentes (buscando e copiando modelos de políticas econômicas eficientes de outros lados mais experimentados) não há sabidamente recursos para sustentação de tais direitos considerados básicos - como saúde, educação, previdência social e segurança. A terceirização destes setores e serviços, entendidos como negócios e não como direitos, pelo modelo do Estado Enxuto, seguirá a lógica e a ética dos valores de interesse individual antes dos interesses coletivos.

Assim, cada pessoa se vê na condição de bancar suas necessidades principais com seus próprios recursos, esta é a regra do Estado Enxuto. Isso vale para escolas com melhor qualidade de ensino, para os planos de saúde, para a previdência, para a segurança, e tudo o mais para eficiência do Estado mínimo.
No Brasil, como sabemos, a metade da população não tem a menor condição de “se virar sozinha” e bancar seu próprio crescimento, educação, planos de saúde, escola, etc., e acaba sendo atendida pelo Estado com serviços de baixa qualidade, caracterizados pela falta de recursos e investimentos. São frequentes as notícias que mostram hospitais públicos sem médicos, sem remédios, sem equipamentos. Ou, ainda, escolas públicas com salas superlotadas, professores mal remunerados e desestimulados, prédios pichados, equipamentos destruídos. Aqui está, portanto, colocada em xeque a noção de cidadania: todos os brasileiros devem ser considerados como cidadãos, com os mesmos direitos e oportunidades enquanto um Estado Democrático? A garantia desses direitos deve ser feita pelo Estado ou cada pessoa deve se virar como puder para ter acesso às condições mínimas necessárias para uma vida digna? São questões urgentes, cujas respostas precisam levar em consideração que a desigualdade existente no Brasil é uma situação explosiva que se reflete no aumento da desigualdade, da miséria e da violência. Nesta transição das políticas econômicas do modelo de Estado do Bem-estar para políticas de Estado mínimo convém observar atentamente a conta custos x benefícios, para não destruir previamente, as perspectivas de transformação de Estado democrático com atrativos para investidores.

Falar de direitos humanos, neste momento de transição e conflitos estruturais, portanto, é pensar seriamente sobre o que é exigido para que os indivíduos possam criar para si mesmos vidas  que, com relação a seus próprios parâmetros ou a qualquer outro razoável sejam boas e prósperas. Esse certamente é um esforço ético, no qual a Ética é entendida como algo mais, inclusive no que se refere à Moral. A Ética diz respeito ao caráter e à qualidade da vida de uma pessoa como um todo e também ao modo como ela a vive; em suma, está relacionada ao tipo de pessoa que somos - o que origina a natureza da atividade especificamente moral de cada um de nós.

No entanto, para reconhecer, proteger e incrementar os direitos que têm por objetivo dar aos indivíduos a oportunidade de criar vidas boas e prósperas, um Estado precisa urdir um tecido de leis e instituições apropriado para tal tarefa. O projeto para delinear esse conjunto de normas requer os conhecidos processos políticos de debate, negociação, consentimento e, por meio deles, a formação do tecido em questão. Portanto, os direitos humanos são políticos, são uma parte relevante da razão de ser do Estado e também um importante foco de atividade e preocupação no âmbito do próprio Estado.
Independente dos regimes explícitos de direitos humanos que recentemente vêm sendo adotados internacional e nacionalmente, os Estados sempre existiram para proteger os interesses, muitas vezes considerados direitos, de pelo menos uma parte de seus cidadãos. Essa proteção visava tanto às ameaças externas quanto às internas e assumia a forma de leis, sanções e instituições. Tudo isso é totalmente político, portanto, sua extensão à ideia de que todos os indivíduos têm interesses que merecem igual proteção sob a forma de leis e instituições - interesses relativos a vida, segurança, privacidade, obtenção e transmissão informações, bem como a outras questões conhecidas que constituíam direitos em todos os códigos - é, da mesma maneira, política e democrática.

Os direitos humanos também são políticos na medida em que estão sujeitos à política em curso e envolvem disputas relacionadas com a forma e a força dos instrumentos que os consubstanciam.
Os governos promulgam determinações relativas aos direitos humanos nos bons momentos e as julgam inconvenientes nos períodos difíceis, quando eles são mais agudamente necessários para todos: essa é a experiência atual nos países ocidentais, sejam desenvolvidos ou emergentes, com a promulgação de medidas que restringem a liberdade na esperança de promover a segurança, confrontando o terrorismo e a criminalidade, o que prova, sem sombra de dúvida, o caráter político dos direitos humanos e das liberdades civis.




quinta-feira, fevereiro 09, 2017

FEMINISMO: BANHEIRO PÚBLICO FEMININO UNIVERSAL UM AVANÇO SIGNIFICATIVO?


NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID

O Movimento Feminista neste março de 2017 avançou enquanto movimento de direitos civis, ou direitos políticos, ou dos direitos sociais? Algumas conquistas foram alcançadas, sem dúvida, apontam as estatísticas. Sem pretender fazer um balanço completo, pode-se destacar a legalização do direito ao aborto nos Estados Unidos e países europeus; o estabelecimento de uma proporção mínima de mulheres em cargos do funcionalismo público e universidades conservadoras nos Estados Unidos; a proliferação de departamentos de ensino e pesquisa universitários voltados para o estudo da condição da mulher, são alguns exemplos. Tais conquistas, óbvio, se devem aos movimentos feministas pelo fato de que foi precisamente a “gritaria e o espernear” feminino pelas ruas, que informou à mídia e rolou pela internet, rompendo com tradicional silêncio das mulheres nos recantos escondidos do planeta. Sim, foi graças aos movimentos feministas que se conquistou maiores direitos às mulheres, não há como negar.
Evidente, contudo, que os níveis de organização das mulheres em diversos países tem enormes diferenças entre si, mais ainda entre ocidente e oriente.  Abro um parêntese para uma informação a mais: o sociólogo inglês Thomas Hunphrey Marshall (1893-1981) significou um enorme avanço para os estudos sobre direitos humanos, justamente sobre o conceito de cidadania e políticas sociais. No ensaio Cidadania e classe social (1963), Marshall apresenta o argumento de que o desenvolvimento progressivo dos direitos de cidadania da Inglaterra, combinado ao da economia de mercado, foi fator importante para a criação e fortalecimento do Estado de Bem-Estar Social naquele país. Ao analisar a evolução dos direitos de uma perspectiva histórica, que culmina com a incorporação dos direitos sociais, Marshall põe em pauta a ideia de que qualquer pessoa, independentemente de sua posição social, gênero, raça, tem direito a viver uma vida plena e a obter um rendimento razoável para estar em dignidade. Neste sentido, a conquista dos direitos sociais torna-se de importância fundamental para o ideal social de "igualdade para todos".
 Ao traçar a evolução do Sistema Estatal de bem-estar britânico, Marshall identificou três estágios na aquisição dos direitos de cidadania: o primeiro estágio refere-se à conquista dos direitos civis - que, na Inglaterra ocorreu no século XVIII, e direitos estes que correspondem à liberdade individual: liberdade de religião, de pensamento e de expressão; liberdade de ir e vir; direito à propriedade e a contrair contratos; direito a um tratamento legal justo. O segundo estágio diz respeito à conquista dos direitos políticos do século XIX:  direitos que garantem aos cidadãos a participação na atividade de governança política: direito ao voto, de assumir cargos públicos, de participar no processo político como eleitores ou como representantes sejam homens ou mulheres. Por fim, no século XX, a conquista dos direitos sociais: refere-se à oferta de serviços públicos principalmente nas áreas de educação, saúde, habitação e previdência social. Estes, respondem às necessidades humanas básicas, assegurando um bem-estar econômico mínimo. Ainda, segundo Marshall, a esses três tipos de direitos correspondem quatro conjuntos de instituições: os tribunais, que asseguram os direitos civis; as assembleias representativas que constituem fóruns legislativos e de decisões políticas; os serviços sociais, que garantem o mínimo de proteção contra doenças, miséria e, por fim, a escola, que é a instituição fundamental que viabiliza o acesso à educação. Fecha o parêntese.

Tendo como modelo a lógica de Marshall, verifica-se que os movimentos diferem enormemente de um país para outro, daí a urgente necessidade do compartilhamento de informações pelas ferramentas de mídia digital.  Uma experiência importante desse movimento tem sido a de concretizar a solidariedade entre as mulheres através da formação de centros de apoio, que adquirem as mais variadas feições, baseados fundamentalmente no trabalho voluntário. Multiplicam-se, desta forma, espaços culturais — livrarias, editoras, cursos, exposições de arte, simpósios, congressos, etc. — que buscam a divulgação e o intercâmbio da produção feminina em seus vários aspectos. Criaram-se também Casas da Mulher, onde se desenvolve um trabalho de apoio (jurídico, médico, psicológico, cultural) e de conscientização; clínicas de saúde, onde a mulher encontra um atendimento ginecológico e obstetrício voltado para a aquisição de um conhecimento de sua biologia, de sua sexualidade; centros de socorro (SOS-Violência) onde a mulher, vítima de violência física, encontra um suporte imediato. Nestas duas décadas houve uma significativa expansão da literatura científica e de ficção a respeito da mulher. Multiplicaram-se as publicações feministas. Para a grande parte das sociedades ocidentais o movimento feminista constitui hoje uma realidade e uma inegável força política. Entretanto, talvez a força maior, mais importante e menos aparente dos movimentos feministas esteja na semente de questionamento e de reivindicação que surge na consciência das mulheres de gerações diferentes, velhas senhoras ou jovens ainda adolescentes que, vivendo anonimamente o seu cotidiano, vêm tentando transformá-lo e recriar a sua relação com o mundo, com os maridos, ou namorados, ou chefes ou filhos, mais ainda consigo mesmas.

Uma observação curiosa de viagens que fiz, foi sobre os símbolos com seus significados transformadores de comportamentos e valores. Talvez dos símbolos mais subestimados sejam aqueles usados em aeroportos do mundo inteiro para indicar a presença de banheiros e de gêneros num idioma universal : os símbolos de homem, de mulher, e, de fraldários! Pensar neles surte o mesmo tipo de efeito que, segundo os físicos, explicar o início do universo: uma expansão repentina e vasta de ideias e constatações inesperadas.

Deixando de lado o fato de que o símbolo do banheiro masculino é uma versão lindamente simplificada do estudo de Da Vinci sobre as proporções humanas, e refletindo sobre a realidade cultural diversificada dos maiores aeroportos nos países desenvolvidos, disponibilizarem ali espaços para a troca de fraldas. Céus, que avanço! Isso é uma MARCA E TANTO de mudança nas relações entre homens e mulheres. Um pai da Era Vitoriana teria ficado horrorizado com a ideia de trocar uma fralda, mais ainda em público. Agora, os símbolos nos dizem que isso acontece com frequência suficiente para que uma mesa para a troca de fraldas não seja uma exclusividade do banheiro feminino mas um espaço comum aos gêneros. Muito mais surpreendente, porém, é a própria ideia de um banheiro público. Se embarcarmos no trem Himalayan Queen de Déli a Chandirgarh de manhã cedo, passaremos por campos ao amanhecer, nos quais centenas de homens estão agachados a alguns metros uns dos outros, defecando e fertilizando o solo com seus traseiros expostos à luz do sol, sem constrangimento algum. Essa imagem impactante para nós mulheres ocidentais, fica impressa na mente a despeito de nossa vontade. Ela dá origem a um pensamento contundente: explica por que as meninas nesses países subdesenvolvidos abandonam os estudos quando atingem a puberdade. A ausência de banheiros nos quais elas possam fazer sua higiene pessoal torna a sala de aula de pau-a-pique algo impossível para elas. Nestes países, os movimentos feministas ainda estão no estágio da busca dos direitos civis básicos e tem uma longa caminhada. Os banheiros com água corrente, tanto públicos como privados, são salvaguardas contra as doenças epidêmicas que devastam as comunidades mais pobres.

 Em Londres, conta-se que  num verão do século 19, houve um refluxo de esgoto do rio Tâmisa que chegou até às portas do Parlamento. O fedor foi tal e a repugnância sobre os narizes dos nobres parlamentares, que esse efeito pernicioso foi que, finalmente, depois de séculos de doenças e mortes na zona pobre da cidade, causadas pelo rio infecto,  fez com que os legisladores promulgassem uma lei para a criação de um sistema de esgoto e fornecimento de água limpa decente para toda a cidade londrina. Esta história deixa um cheiro desagradável: quando a pergunta é: o que é necessário para tornar um governo racional? A resposta irreal é: o interesse próprio dos políticos! O poder nunca é solidário quando pertence a um único gênero!

Moral desta pequena história: a coisa mais importante sobre os sinais universais dos banheiros dos aeroportos é a promessa que eles guardam para o futuro! Estes símbolos simples, claros e precisos nos fazem lembrar uma coisa tão profunda que facilmente a esquecemos: a natureza humana e sua experiência são fundamentalmente as mesmas em qualquer lugar e em todos os momentos. 
Compartilhamos as urgências mais básicas, todos nós mulheres e homens, como seres humanos!






terça-feira, janeiro 24, 2017

ULTIMATO DO DESEMPREGO MASSIVO: DA ECONOMIA INFORMAL PARA A ECONOMIA ILEGAL!


                                                                 NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora AWID

As gerações futuras verão 2008 como um ano de mudanças tectônicas! Foi um ano a ser classificado junto com 1929, 1945, 1968 e 1989, pelas crises aparentemente não relacionadas, mas que mostraram que o mundo havia chegado a um ponto de virada: o preço do petróleo atingiu 147 dólares o barril forçando-nos a reconhecer os limites ambientais ao crescimento econômico; assistimos a um simbólico ponto final à hegemonia global dos Estados Unidos, que já dura sessenta anos, com o país observando, impotente, a Rússia, que invadia seu aliado e consumidor, a Geórgia;  o colapso de um grande banco americano de investimentos — o Lehman Brothers —, destruindo a credibilidade do capitalismo de mercado ultra-livre, que reinou praticamente incontestado ao longo de três décadas.
Durante alguns meses, de fato, parecia que uma mudança fundamental na ordem mundial era iminente. Até mesmo o então presidente francês Nicolás Sarkozy, conservador, resolveu ler O capital, de Marx! No entanto, tais conflitos não produziram uma crise catártica e uma renovação, e sim, um sentimento de impotência, confusão e mal-estar. Os líderes políticos nos dizem que após uma rápida dose de austeridade virtuosa na Europa, ou otimismo empreendedor nos Estados Unidos, voltaremos em breve às alturas ensolaradas do mundo pré-2008. Mas essas garantias convencem pouca gente. A maioria prevê vários anos de dívidas acachapantes, queda da qualidade de vida e aumento da desigualdade social aterrorizante. E, no longo prazo, os governos ocidentais não tem a mínima noção real, neste mercado de busca de empregos com segurança social, de como o Ocidente um dia poderá se equiparar ao dinamismo das potências asiáticas em ascensão, sem derrubar os salários, sem abdicar das conquistas sociais e dos padrões de vida, conformando seus submetendo seus trabalhadores ao nível dos chineses e indianos e,  com toda esta ruptura social, sem chegar às tragédias pessoais, aos atos desesperados que são traumáticos pela perda da capacidade de consumo individual e familiar, que leva regiamente à indignação até a prática da busca de sobrevivência pela economia ilegal e o terrorismo.

E se os conflitos sociais no mundo desenvolvido se intensificarem, como parece provável, acompanhando a estagnação das economias e o avanço do desemprego, também aumentarão as tensões do comércio internacional no estilo da recessão de 1929. Como a experiência dos anos da crise econômica de 29 deveria ter nos ensinado, uma crise da dívida traz sérios conflitos sociais — não só entre ricos e pobres, mas também entre os que internalizaram os valores de classe média. Talvez o paralelo mais próximo com a Alemanha líder mundial, se encontre hoje justamente nos Estados Unidos. O país, endividado com nações estrangeiras, adaptando-se ao declínio geopolítico e priorizando criar empregos para classe média e pobres, está absolutamente dividido: entre os liberais criativos, mais democráticos e adeptos do Estado do bem-estar, como Obama, e os comerciantes firmes, autoritários do Tea Party, como Trump, à direita neo-liberal. O Tea Party é uma resposta clássica do comerciante firme usando uma linguagem marcial irada, culpando os imigrantes por se aproveitarem do sistema de bem-estar social do Estado protetor. Sua análise é simples: a massa de pessoas honestas e trabalhadoras norte-americana, pagadora dos seus impostos, é a grande vítima de uma elite arrogante, sofisticada, cosmopolita e tecnocrática, que desperdiça o dinheiro dos contribuintes socorrendo os banqueiros, os pobres irresponsáveis e os imigrantes sanguessugas, enquanto exporta os empregos dos trabalhadores americanos. O Tea Party, então, integra um ressurgimento da direita radical no mundo ocidental, pessoas que internalizaram os valores de consumo e conforto e procuram explicar por que o mercado não lhes deu a riqueza e o status que elas acreditam merecer? Uma versão dessa direita também está se fortificando na Europa, conforme  recente ascensão da islamofobia e do sentimento anti-imigrante em toda a Comunidade Europeia.

Nem todas essas tensões sociais se expressam dentro da política organizada, é óbvio. Privados de seus empregos com remuneração estável e convivendo com o baixo status em uma sociedade de intenso consumo, os  trabalhadores operários estão migrando, em números crescentes, para a economia informal na mesma proporção que para a economia ilegal. Diversos países estão enfrentando a ascensão descontrolada da violência, do tráfico de drogas e do crime de toda ordem, incluindo o terrorismo, por conta do desemprego massivo, antes oferecido pela cultura de encantamento do desenvolvimento industrial. É claro que os países ocidentais estão em diferentes níveis de industrialização e, por via de consequência, absorvem, também, a mão de obra em níveis diferenciados. Programas de gestão e políticas de empregos não podem ser copiados!    

Portanto, para o século XXI, nesta herança do desemprego massivo, evitar que a economia informal seja superada pela economia ilegal e do crime, parece ser o grande desafio e urgência dos países ocidentais no momento.
O trabalho informal é visto com desprezo, preconceito e ignorado – sintoma claro da crise do desemprego – pela sequência dos governos brasileiros, para citar um exemplo. Daí nossa informalidade é precária, realmente marginal e sem nenhuma chance de que o trabalhador autônomo pratique uma atividade mais qualificada, criativa e com possibilidade de, após um prazo, alavancar para uma microempresa. Hoje, o trabalho criativo do brasileiro dedica 90% do seu tempo com a burocracia, ou seja, dos 365 dias do ano seguem 180 dias desperdiçados na tentativa estafante de tentar “tocar” o negócio e não falir por completo, buscando resolver as questões legais e ver o pequeno lucro sumir pelo ralo. Onde governos conscientes de que é preciso socorro com políticas de ajuda para este momento de crise? Quando estímulos para viabilidade e sobrevivência com prazos flexíveis e menos interferência do Estado sobre este trabalhador?

Se a bola da vez é a reedição do “New Deal” pós crise de 1929, com adaptação das reformas econômicas, administrativas e sociais, com a criação de frentes de trabalho intensivas internas, pelo estímulo à livre concorrência individual, ou seja, tudo para ter um Estado enxuto e restaurador dos direitos de liberdade privada. A moral do New Deal atualizado, portanto, seria buscar que os indivíduos exercessem plenamente seus direitos sem nunca sofrer, na sua vida moral, social ou econômica, coações ou sanções impostas por autoridades coletivas. Os filósofos ultraliberais se apoiam no modelo do mercado que associa os princípios da livre concorrência e da propriedade privada, concomitantemente. Eles se situam na extrema direita do tabuleiro político norte-americano, no entanto, não têm nada em comum com movimentos de extrema-direita autoritários, populistas e xenófobos, observáveis na Europa. Outros cantores da liberdade, como Noam Chomsky, defendem a "liberdade total e absoluta", mas rejeitam categoricamente o modelo egoísta do mercado. Chomsky até compartilha da tradição anarquista  hostil ao mesmo tempo ao Estado e ao capitalismo, que escapa do objetivo de desenvolvimento individual exclusivamente.

Ainda dentro da lógica do New Deal remodelado, os ultraliberais têm uma palavra de ordem: combater o despotismo do Estado de bem-estar e aplicar as regras do mercado ao conjunto da vida social. São inspirados em economistas como Ludwig von Mises (Ação humana, 1949), Friedrich von Hayek (Direito, legislação e liberdade, 1979) e Milton Friedman (Capitalismo e liberdade, 1962). No entanto, pretendem ir mais longe e não se limitar unicamente ao quadro das trocas econômicas. Pretendem programas de longo prazo, estabilizadores da economia interna, porque estão convencidos das virtudes do contrato privado e supõem que os equilíbrios naturais formados na sociedade, concorrem simultaneamente para o desenvolvimento de cada um e, por via de consequência, para a melhoria do bem-estar coletivo. Assim, o objetivo de igualdade ou de equidade buscado pelos partidos social-democratas não é somente irrealizável. É também perigoso, afirmam. Dado que está teoricamente destinado a realizar a justiça social, o Estado do bem-estar acabou refreando, na verdade, a liberdade ao multiplicar as regras arbitrárias e ao abafar os indivíduos empreendedores. Do mesmo modo, a justiça não pode ser obtida pela busca dos valores morais dominantes, como propõem a social-democracia, pois isso acabaria abolindo pura e simplesmente a liberdade de consciência. A sociedade "justa" seria naturalmente resultado da "liberdade máxima" e do pleno gozo dos direitos individuais: liberdade de opinião, liberdade de expressão e propriedade privada. Ela é o resultado do encontro livre entre os seres humanos.
Sob esta moral e princípios ultraliberais, ainda, o indivíduo estará destinado a desenvolver-se plenamente e, por consequência, em nenhum momento deverá sacrificar-se pela comunidade. Certamente, a solidariedade é honrosa em suas intenções. Mas tem como consequência o fato de frear as iniciativas e entravar a liberdade individual. Na sociedade, argumentam, “só há indivíduos diferentes, com suas vidas individuais próprias. Utilizar um desses indivíduos para o proveito de outros é sacrificar a ele indivíduo, e não os outros que se beneficiam dele. Utilizar um indivíduo desse modo é não respeitá-lo suficientemente e não levar em conta o fato de que é um indivíduo distinto, que é a única vida que ele tem. Ele não obterá nenhum bem que compense o seu sacrifício pessoal e de sua família, e ninguém tem o direito, portanto, de lhe impor isso, e menos ainda o Estado ou um governo de determinado partido, que deve permanecer “escrupulosamente neutro em relação aos seus cidadãos" (Estado, anarquia e utopia, de Robert Nozick). No entanto, concluem, para reduzir os importantes bolsões de pobreza observáveis na sociedade americana, formas de ajuda mútua em direção dos mais pobres podem ser programadas. Mas elas devem ter como objetivo completar os mecanismos naturais do mercado e não substituí-los. Elas não podem evidentemente ser organizadas pelo Estado. Devem ser o fruto de um compromisso livre e pessoal fundado no altruísmo, na generosidade, na dedicação e pelas ONGs. E retomando a metáfora do contrato social, reconhecem que os homens, no estado natural, são levados a todas as espécies de violências que atentam contra as liberdades (liberdade de opinião, liberdade de contratos, liberdade de gozar de bens privados) e têm a tendência a não mais respeitar seus compromissos quando estes se opõem aos seus interesses. Por esta razão, a sociedade deve decidir-se a preservar, confiando ao Estado o uso da força para proteger as pessoas contra o roubo, a fraude ou a violência, garantindo assim a realização dos contratos. O Estado, contudo, deve ser limitado a tão somente a função de ordem: a da política, a da justiça e a da defesa.

Ora, sob esta lógica da direita atual no poder e pela consequente proposta de um Estado de políticas de enxugamento com programação de não intervenção no mercado, é urgente que o Governo se apresente e diga a que veio, para que a  sociedade, para que os seus cidadãos se adaptem imediatamente às mudanças. A contrapartida do Estado e do governo neste processo de transformação econômica tão desestrutoradora, deveria ser de grande estímulo ao empreendedorismo, à independência dos ex-trabalhadores  desempregados, para às atividades criativas com auto suficiência. Já que a palavra de ordem do Estado enxuto defini-se “sai da minha aba protetora e vai pra rua te virar”, moralmente o Estado/governo deveria criar estímulos para a transição e com prazos, caso contrário, significará traição ao seu povo e irresponsabilidade social. 

É preciso que se manifeste o Governo sobre sua preocupação séria com esta massa de cidadãos desempregados, que estão  sob o ultimato entre a sobrevivência pela economia informal e a ilegal!        






terça-feira, janeiro 17, 2017

CHEGAMOS AO FIM DO EMPREGO NESTA PÓS-MODERNIDADE?


                                                            NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID

Parte I

Questão crucial neste início de século XXI é, sem dúvida, as novas relações de trabalho e emprego com consequente desemprego, que obrigatoriamente mudarão estruturas, políticas públicas e conceitos de trabalho, emprego, salários e direitos trabalhistas. Em estudos recentes de sociólogos e economistas concluiu-se que a informalidade até aqui, foi tratada com preconceito pela legislação. E talvez seja esta, precisamente, o caminho da salvação!

 Impelido pelo desemprego maciço dos anos 20 e 30, J.M. Keynes desenvolveu os conceitos de demanda econômica agregada e deficiência de demanda e sua teoria do desemprego foi habilmente sintetizada em um programa social-democrata para um modelo de Estado de bem-estar social e de pleno emprego, por William Beveridge em Full Employement in a Free Society (1944). Nesse influente relatório, Beveridge defendia garantias governamentais de pleno emprego   e do capital, através da regulamentação do mercado de trabalho pelo estado de bem-estar, como parte de um programa social e político bem mais amplo para a criação de uma sociedade que garantisse justiça e liberdade para todos. A argumentação de Beveridge em favor de um Estado de bem-estar social e de pleno emprego, estabeleceu efetivamente os parâmetros para a discussão pública do desemprego, dentro das sociedades capitalistas durante os 30 anos que se seguiram.
A criação destes Estados de bem-estar e de pleno emprego em países capitalistas europeus coincidiu com um período, depois da Segunda Guerra Mundial, de prolongado crescimento econômico, pleno emprego (masculino), crescimento dos salários e baixa inflação. Sempre que parecia necessário, os governos desses países — às vezes dentro do quadro de um planejamento econômico indicativo e de extensa propriedade por parte do estado, como na França, por exemplo, — controlavam seus próprios gastos e impostos para garantir um nível consistentemente elevado de demanda econômica e de emprego. A maioria dos comentaristas e dos implementadores de programas econômicos chegou à conclusão de que, uma vez que os governos, usando as técnicas keynesianas de administração da demanda, eram capazes de manter o desemprego em níveis baixos e conservar a prosperidade, tais programas deviam, portanto, garantir tais condições favoráveis. Vários autores afirmaram, com o benefício da visão em retrospecto, que o pleno emprego do pós-guerra dependeu de uma conjuntura de muitos outros fatores econômicos, sociais e políticos mais importantes: políticas de livre comércio nas finanças e comércio internacional; estabilidade de preços; reserva de crescimento e de desenvolvimento tecnológico potencial que economias mais bem sucedidas podiam explorar; e também as políticas keynesianas propostas.
O pleno emprego era também a política oficial de estados do tipo soviético, como parte de estratégias econômicas socialistas criadas para se atingir uma rápida industrialização e lançar as bases de uma sociedade socialista. Era típico desses estados que tais estratégias — abandonadas por muitos deles no início dos anos 90 — sacrificassem deliberadamente a eficiência econômica, não reconhecessem a existência do desemprego ou de um mercado de trabalho, e alocassem os números excessivos de trabalhadores em projetos e indústrias, escondendo assim diversas formas de desemprego "oculto".

Com o retomo do desemprego em massa na maioria dos países da Europa Ocidental e na América do Norte nos anos 70, a visão social-democrata de Beveridge passou a sofrer um ataque contínuo por parte da Nova Direita, cujo pensador mais destacado na questão das causas do desemprego foi o economista Milton Friedman da escola econÔmica de chicaGo. Desenvolvendo uma linha de pensamento que remonta a Herbert Spencer e outros autores do último quartel do século XIX, Friedman insiste em que o apoio no estado burocrático para garantir o bem-estar dos indivíduos tornou-se um fim em si mesmo, contradizendo com isso, o objetivo original de maximizar a liberdade individual e a igualdade de oportunidades. “O pleno emprego não pode ser alcançado através dos meios de um Estado de bem-estar devido ao tipo de planejamento e regulamentação estatais recomendados por Beveridge e Keynes, os quais distorcem os mecanismos de mercado para a determinação de salários, preços, investimentos e a distribuição do trabalho remunerado”. Especificamente, Friedman afirma que qualquer política monetária ou fiscal que tente colocar a taxa de desemprego abaixo do que eles chamam de taxa "natural" só conseguirá, em última análise, acelerar a taxa de inflação. Em vez disso, os governos deveriam dar um passo decisivo no sentido de estabelecer e manter um controle rigoroso sobre o meio circulante, a fim de controlar a inflação; deviam seguir uma estratégia de emprego de livre mercado, visando reduzir a "rigidez estrutural" dentro da economia e no comércio internacional, reduzindo drasticamente a intervenção estatal na economia e cortando o tamanho e o custo do Estado de bem-estar burocrático. Assim, a livre concorrência garantirá um nível elevado e prolongado de emprego. (Ver Friedman, 1977; Friedman e Friedman, 1962 e 1980.)

As abordagens de livre mercado para o desemprego exerceram substancial influência sobre as políticas governamentais nos anos 80, especialmente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, mas, tal como o Estado de bem-estar e de emprego, esses países enfrentaram muitos problemas para reduzir os altos níveis de desemprego. Importantes fatores econômicos que explicam essas dificuldades foram a desindustrializaçÃo e a nova divisão internacional do trabalho, que aumentou o desemprego "essencial" ou "estrutural" (diferente do desemprego "cíclico" ou keynesiano); e tendências demográficas que aumentaram o número de trabalhadores, particularmente mulheres e imigrantes, na demanda por emprego.

Os altos níveis de desemprego nos anos 70 e 80 levaram muitos autores a questionar a viabilidade de se retomar ao pleno emprego, assim como todo o futuro do trabalho remunerado. Segundo André Gorz, em seus Farewell to lhe Working Class (1980, 1982) e Paths to Paradise (1984), as últimas décadas do século XX testemunharam o surgimento de sociedades de desemprego de massa permanente. À medida que o trabalho remunerado veio sendo cada vez mais substituído por sistemas microeletrônicos e de telecomunicações, pela revolução da robótica, bens e serviços foram produzidos com menos investimento, menos matérias-primas e menos mão-de-obra. É provável, portanto, que estas sociedades venham a passar por um "crescimento sem emprego", isto é, o crescimento econômico pode ocorrer, mas não estará associado a expansões equivalentes do emprego. Esse desenrolar dos acontecimentos não só virá a gerar desemprego em massa, conclui Gorz, como também alterará a estrutura de classes sócio-econômicas das sociedades de emprego, como a classe média. Sob a pressão de acelerar a mudança tecnológica, os trabalhadores se verão divididos em três substratos: uma aristocracia privilegiada de "trabalhadores com estabilidade" fortemente sindicalizados, com emprego integral; e dois substratos formando uma "não-classe de não-trabalhadores", compreendendo os permanentemente desempregados condenados à pobreza e à ociosidade, e um número crescente de trabalhadores "temporariamente empregados", em ocupações de baixa especialização, sem nenhuma segurança no emprego e nenhuma identidade de classe definida. 

O único meio desejável de se evitarem estas divisões sociais agudas e o desemprego em massa permanente, conclue Gorz, seria separar  o ter o emprego do receber uma renda; e desenvolver uma sociedade democrática, pós-emprego, na qual o trabalho socialmente necessário se veja reduzido a um mínimo e seja distribuído equitativamente, a fim de "fazermos mais coisas por nós próprios em nosso tempo livre", usando a criatividade como forma de sobrevivência”, afirma Gorz.

sábado, dezembro 17, 2016

DESEMPREEGO EM MASSA, QUAIS PLANOS DE ESQUERDAS E DIREITAS PARA ESTE DESAFIO DO MILÊNIO?


NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID

Em 2018 teremos eleições presidenciais no Brasil e temos curtos 1 ano e meio para a escolha dos possíveis presidenciáveis! Do atual bate-boca estéril dos partidos de direita, das ramificações de extrema direita e da esquerda e suas respectivas ramificações nas redes sociais e mídia, dos candidatos a candidatos, nenhuma pequena indicação escapou destes cérebros, sobre agenda de enfrentamento e rumos da economia para solução do desemprego em massa, esta grande questão que epidemicamente contagia todos os governos desenvolvidos e emergentes, dos neoliberais aos socialistas, no planeta inteiro. O tempo urge por decisões contra a estagnação e pobreza extensiva! Bate-boca entre poderes já institucionalizados não põe dinheiro no bolso tampouco comida na mesa do cidadão trabalhador, no dia a dia, é fato.

A tolice intelectual do momento é a crença de que somente as eleições democráticas, por si só, estabelecerão um ambiente propício ao progresso econômico. Tanto a História quanto a sociologia política mostram que essa visão é falsa. Se o governo pretende ser uma força positiva da prosperidade econômica, as regras do jogo político devem ser estabelecidas de forma a manter o egoísmo dos eleitores, dos políticos e investidores, em permanente harmonia com o progresso econômico. Isso exigirá, dizem os especialistas, que o escopo do governo seja limitado e que este permaneça neutro em relação aos diversos subgrupos de interesses. Vejamos. Quando o governo não sofre restrições em sua ação - quando qualquer coisa pode ser conseguida dentro do processo político -as atividades predatórias serão comuns. As pessoas da gestão gastarão mais tempo disputando os pedaços da torta econômica e menos tempo produzindo tortas, diz um ditado popular norte-americano. O resultado é que a produção será menor do que normalmente ocorreria. Surgirão animosidades, desconfianças e rixas entre facções, enquanto a produção permanece estagnada. A vida cotidiana para o cidadão em uma economia altamente politizada, se tornará estressante, humilhante e instável. Bom exemplo é o dado pelos idealizadores da Constituição dos EUA, ao reconheceram esse ponto, razão porque incorporaram restrições ao desempenho econômico do governo. Eles enumeraram os poderes fiscais permitidos ao governo central (Artigo I, Seção 8) e concederam todos os outros poderes aos estados e ao povo (Décima Emenda). Eles também proibiram os estados de adotar legislações "que prejudicassem a obrigatoriedade dos contratos" (Artigo I, Seção 10). Além disso, a Quinta Emenda especifica que a propriedade privada não deverá ser "tomada para uso público sem uma justa compensação". De modo claro, a Constituição dos EUA procurou limitar a capacidade do governo federal, de politizar a economia e explorar os direitos dos cidadãos. Com o tempo, entretanto, as restrições econômicas se enfraqueceram, é fato. Como resultado, o governo federal está atualmente envolvido em tudo! Os efeitos dessa abusiva estrutura politizada são óbvios: - impostos altos, excesso de regulamentos, muitos gastos com interesses especiais e grandes déficits orçamentários que ameaçam toda a estrutura financeira. O desafio declarado é o de estabelecer regras e procedimentos rigorosamente Constitucionais, que ajudem a trazer o processo político de volta a um estado de harmonia com o progresso econômico, limitando a disposição dos personagens do poder para servir aos grupos de interesses não coletivos.

O Brasil é dotado de inúmeras vantagens em relação a outros países -território extenso e praticamente todo aproveitável, riquezas naturais abundantes, população em  número elevado mas compatível com sua extensão territorial, livre de conflitos étnicos graves e dos riscos de uma explosão demográfica, além de contar com uma base produtiva moderna, mesmo não situada na fronteira tecnológica - o Brasil, eterno "país do futuro", chega ao ano de 2016 exibindo uma das mais sérias crises da sua história moderna. Tão ou mais graves que os valores absolutos dos indicadores dessa crise são os contrastes que se estabeleceram no seio da sociedade brasileira e a lógica que permitiu surgir um país  "de médicos desempregados e de mortos por falta de médicos; de professores sem alunos e milhões de crianças sem escola; de terras sem homens e homens sem terra; com um excedente agrícola exportado e dezenas de milhões de pessoas desnutridas; com território tão grande e a população concentrada em poucas, absurdas e inviáveis cidades; incapaz de usar o conhecimento científico e tecnológico de que dispõe... na eliminação de doenças endêmicas, na educação da população e na criação de um sistema social eficiente...'' (Gary S Becker, Economic Journal, 2002).

Neste quadro desalentador, constata-se um agravamento do desemprego em massa e da precarização das condições de trabalho com dramáticas consequências para o desenvolvimento do país.  Fato é que a constituição de uma sociedade "fraturada" no Brasil e a situação de calamidade que atinge a classe trabalhadora, decorrem menos da crise global, muito mais da ausência de um projeto de desenvolvimento a longo prazo, ou como destaca o economista Subrata Ghatak, em seu estudo Development Economics, “são destituídas de qualquer fundamento as políticas econômicas de desenvolvimento  que pretendam alcançar resultados a curto prazo porque uma das pré-condições para o desenvolvimento, é precisamente um objetivo de natureza estrutural, cujo estabelecimento e viabilização não se darão em curto prazo”. Todas as tentativas das últimas décadas empreendidas por governantes dos países emergentes, revela seu estudo, resultaram em tentativas frustradas, pelo encurtamento do processo de transformação e aceitação social. Planos de desenvolvimento para apenas uma gestão de 4 anos de governo, tipo apagar incêndios,  é mero esquema de marketing eleitoral de campanha.

“Ghatak explica ainda: Afirmou-se a consciência recentemente, de que o desenvolvimento econômico é parte de um processo muito mais amplo de transformação social, que deve ser necessariamente longo, lento e laborioso; que o desenvolvimento exige paciência, persistência e um esforço bem dirigido; que o auxílio externo pode ajudar, mas não realizará totalmente a tarefa; que o crescimento só pode resultar de poupanças, investimento e produção; que a poupança exige a abstinência; que os recursos escassos devem ser distribuídos com inteligência e usados com eficiência; que o dispêndio público, como o privado, deve ser justificado no mínimo por benefícios iguais, embora estes nem sempre possam ser medidos por critérios econômicos; que os valores, costumes e modos de pensar e agir tradicionais são incompatíveis com os objetivos do desenvolvimento e devem adaptar-se a eles; que uma grande determinação e esforço são essenciais para alcançar o desenvolvimento econômico".
A formulação de uma política de desenvolvimento requer, assim, muito mais que simples objetivos de crescimento econômico. Na verdade, desemprego e desenvolvimento", remete a mudanças sociais mais profundas. A perspectiva de redução progressiva do número de horas de trabalho na produção dos bens necessários à humanidade deve resultar em menos horas de trabalho para todos ou no desemprego para muitos? A humanidade suportaria os efeitos de escolha da segunda opção? É razoável imaginar que o nível de pobreza, por vezes de barbárie, presente no mundo, mesmo nos países de "maioria rica", poderá ser ampliado? Os povos dos países de "maioria pobre" aceitarão a manutenção do fosso que os separa de outros povos, mesmo sabendo que o conforto destes depende, em grande parte, do seu sacrifício?

O dilema diante do qual encontra-se a humanidade no que se refere ao tema em pauta encontra uma descrição sintética nas palavras do sociólogo alemão Claus Offe, no texto escrito ainda em 1983, "Três perspectivas para o desemprego : "As crises são sempre ambivalentes porque aumentam ou paralisam a capacidade de compreensão de um sistema. É difícil dizer se a crise contínua do mercado de trabalho ajudará a estimular a imaginação e a inventividade política ou se, pelo contrário, dará origem ao cinismo e relegará crescentes frações da classe trabalhadora a condições marginais de subsistência".



sábado, dezembro 10, 2016

DIREITO AO TRABALHO/EMPREGO NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO! OU A DICOTOMIA IDEOLOGIA UTÓPICA X AUSÊNCIA DE IDEOLOGIA!


NORA PEIXOTO, Socióloga integrante da AWID

O século XX foi o “século do trabalhador”, diz o professor G.Standing  no seu estudo Globalization, labour flexibility and security: the era of marketing regulation, publicado em 1997. Comento aqui seu primoroso estudo. Diz ele que o século XX  se iniciou com clamores, em todo o mundo, reivindicando os direitos do trabalho - o direito a um status social melhor, à dignidade, à segurança e a um senso de autonomia. Um clamor para libertar-se do trabalho. No entanto, em meados do século, na esteira da Grande Depressão e de uma Guerra Mundial, os reformistas contentavam-se em exigir o direito de trabalhar, procurando enobrecer o enfado de ter um emprego, atrelando tudo ao "pleno emprego", que, na realidade, era um emprego de homens em tempo integral, graças às mulheres marginalizadas, que participavam de forma intermitente da força de trabalho, quando requisitadas, ou quando havia oportunidade. Agora, esse “século do trabalhador” chegou ao fim sob o caráter libertário em que muitos liberais e socialdemocratas advogam e introduzem políticas para reforçar o dever de trabalhar, a obrigação de trabalhar para ter o direito de ser tratado como cidadão e receber benefícios públicos. Neste processo, os governos estão dificultando cada vez mais a sobrevivência sem trabalho, sem um emprego.
O século XXI se afastará do modelo do trabalhador masculino, bem como da visão do trabalho como centro e objetivo da existência humana. Reforçará a distinção entre labor e trabalho, e centrar-se-á na criatividade, na comunidade, na individualidade e no autocontrole que o trabalho pode oferecer, mas que o labor não oferece, afirma Standing. Para afastar-se com sucesso do erro trabalhista do século XX, os reformistas terão que beneficiar-se das mudanças tecnológicas e econômicas que estão ocorrendo no mundo, desde os países emergentes até os desenvolvidos, para forjar uma nova estratégia de justiça redistributiva de renda.
As mudanças tecnológicas sempre foram consideradas como ameaça e causa de desemprego. Assim, cabe relembrar as lições dos tumultos Ludistas na Inglaterra (O ludismo ou luddismo) foi um movimento que ia contra a mecanização do trabalho proporcionado pelo advento da Revolução Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo ludita (do inglês luddite) identifica toda pessoa que se opõe à industrialização extensa ou a novas tecnologias, geralmente vinculadas ao movimento operário anarco-sindicalista, as reclamações contra às máquinas, a tecnologia  e a sua substituição em relação à mão de obra humana. Em 1811, na Inglaterra, ludismo ganhou uma dimensão significativa. O nome deriva de Ned Ludd, personagem criada a fim de divulgar o ideal do movimento operário entre os trabalhadores. Os luditas chamaram muita atenção pelos seus atos destrutivos de invadirem fábricas e destruirem máquinas que, segundo eles, por serem mais eficientes que os homens, tiravam seus trabalhos, requerendo, por consequência, esforços físicos mais intensos dos operários e mais duras horas de jornada de trabalho. Os luditas ficaram lembrados como "os quebradores de máquinas". Para além de histórico, este termo representa também um conceito político, usado para designar “todos aqueles que se opõe ao desenvolvimento tecnológico na indústria. Um exemplo de um autor que se identifica com esta designação é o Kirkpatrick Sale, que escreveu o livro "Rebels Against the Future" ou Rebeldes contra o futuro, para o Movimento Operário.  Para o historiador Eric J. Hobsbawn. o ludismo "era uma estratégia do sindicalismo operário no período que precedeu a revolução industrial e as suas primeiras fases". Surgido no início do século XIX - uma época que se repete na atualidade com as rápidas mudanças tecnológicas, os protestos foram interpretados como uma tentativa irracional de bloquear o progresso tecnológico, tanto assim que 'Ludista'  tornou-se termo depreciativo, aplicado a todos aqueles que resistam às mudanças tecnológicas. Na realidade, os Ludistas podem ser encarados como protestos sociais contra a imposição de novas regras do trabalho e  de divisão técnica do trabalho.  Entretanto, como diria mais tarde o economista Karl Polany: “o movimento dos Ludistas  levou a aprofundar a dicotomia entre economia e sociedade na medida em que as resultantes desigualdades e inseguranças estimularam o início de novas reivindicações sociais dentro das relações de trabalho, tanto quanto a positiva luta  política para uma melhor distribuição de renda e status. Levou os Estados a limitarem os excessos dos grupos econômicos dominantes, assim prevenindo a "miserização" da população trabalhadora.
Uma lição que se pode aprender da experiência Ludista, comenta Starting, é que a economia e a sociedade correm juntas em ciclos sequenciais, uma após a outra, evoluem através de épocas de estabilidade e relativa segurança, para épocas de flexibilidades e insegurança, e seguida em direção à novas épocas de relativa estabilidade social. Fato esse devido ao colapso de velhas formas de acordos distributivos - ligeiro consenso ou reciprocidades legitimadas - e um período de luta para estabelecer novas formas sustentáveis, quanto suficientemente justas para serem aceitas pelos trabalhadores. O capitalismo só evoluiu através de saltos de regeneração, explica Standing, envolvendo uma revolução tecnológica, acompanhada de uma revolução no processo de trabalho em que, de diferentes maneiras, a flexibilização do trabalho e a insegurança dos operários se intensificam. A desigualdade cresce devido a novas formas de exploração e distribuição de renda, levando a  luta por parte dos perdedores, os desfavorecidos e os trabalhadores em geral. O Estado responde a isso, criando ou reforçando mecanismos distributivos considerados apropriados para as formas tecnológicas em uso e organizacionais de produção e distribuição.
O século XX, definiu o professor Standing, deverá ser designado como era de regulamentação do mercado, ou era de regulamentação estatutária ou era do capitalismo previdenciário. A era do capitalismo previdenciário apresentou um modelo de desenvolvimento a ser emulado em todo o mundo, no qual as formas predominantes de regulamentação eram estatutárias, pró-coletivas e protetoras. Em outras palavras, leis, decretos e instituições formais, como os sindicatos e as organizações patronais, foram legitimados e considerados partes integrantes da política social, econômica e do mercado de trabalho. Os objetivos principais poderiam ser resumidos como a promoção de sete formas de segurança no trabalho relativas aos direitos sociais. Essas formas são resumidas abaixo:
Segurança do mercado de trabalho - oportunidades de emprego adequadas, através de pleno emprego garantido pelo Estado;
Segurança no emprego - proteção contra demissão arbitrária, regulamentação, sobre admissão e demissão, imposição de custos aos empregadores, etc.;
Segurança de carreira - um nicho designado como ocupação ou "carreira", mais tolerância de práticas de demarcação, barreiras à diluição da especialização, limites do oficio, qualificações de cargo, práticas restritivas, sindicatos de ofício, etc ;
Segurança no trabalho - proteção contra acidentes e doenças no trabalho, através de normas de segurança e de saúde, limites para horas trabalhadas, horas de repouso, trabalho noturno para mulheres, etc.;
Segurança de reprodução de habilidades - amplas oportunidades para adquirir e manter habilidades, através de estágios, treinamentos, etc.;
Segurança de renda - proteção de renda através do mecanismo de salário mínimo, indexação salarial, previdência social abrangente, taxação progressiva;
Segurança de representação - proteção de voz coletiva no mercado de trabalho, através de sindicatos independentes e associações empresariais econômica e politicamente incorporadas ao Estado, com direito à greve.
O modelo, centrado na economia keynesiana, previa que as mudanças técnicas fossem constantes e moderadas; a estrutura de produção fosse estável, ou apresentando apenas ligeiras alterações, com tempo suficiente para que empregadores e trabalhadores se ajustassem. Esperava-se que o emprego, em sua quase totalidade, fosse emprego em tempo integral, emprego regular, com homens formando o "núcleo" principal da força de trabalho. Supunha-se que a economia de qualquer país fosse essencialmente fechada - na medida em que o comércio internacional representava uma pequena parte da economia nacional, ou em que os bens entravam em concorrência - e que fosse conduzida entre países em que havia direitos e obrigações trabalhistas semelhantes, ou envolvendo o comércio por linhas setoriais, de acordo com a divisão internacional do trabalho anterior, pela qual países em desenvolvimento exportavam principalmente bens primários. Finalmente, havia um consenso distributivo  em que se deixava virtualmente intacto o direito de gerenciamento, enquanto se esperava que a renda fosse "redistribuída a partir do crescimento".
Os trabalhadores lutavam pela "desmercadorização do trabalho", através do aumento do salário social -não apenas do salário em dinheiro, mas também dos benefícios empresariais e públicos, assim como das formas de proteção do trabalho. Este era o foco da luta distributiva. Nunca houve, de fato, um consenso distributivo porque os sindicatos e os trabalhadores estavam sempre forçando uma melhoria mais rápida do salário, enquanto os empresários estavam sempre tentando bloquear esse processo, mesmo tendo feito a maior parte das concessões, ao nível global.
Na década de 1970, o modelo do capitalismo previdenciário começou a desmoronar. Era o fim de uma era de segurança para o trabalhador. Na década de 1980 e, mais dramaticamente na de 1990, entramos na era do capitalismo global e da regulamentação via mercado externo. As mudanças tecnológicas aceleraram e a economia global entrou na parte ascendente de uma “nova longa onda do ciclo de Kondratiev.” A tecnologia da informação tornou o capital (financeiro principalmente)  excessivamente móvel, ao invés de comércio de bens, uma característica da globalização, surgiram as Inovações tecnológicas de quase todos os tipos difundindo-se mais rapidamente ao redor do globo e não ficaram restritas a grandes empresas. As novas tecnologias aumentaram as opções gerenciais, característica crucial dos emergentes sistemas flexíveis de produção. Assim, a descentralização da produção e a flexibilização das práticas trabalhistas acarretaram uma torrente de concessões nas negociações por parte dos trabalhadores em todo o mundo, abrindo mão d segurança. Acima de tudo, a alocação de empregos é determinada com maior facilidade pelos custos comparativos, inclusive custos trabalhistas.
Uma ironia é o fato de os objetivos da época anterior - melhores direitos de trabalho e segurança - serem apresentados hoje como "obstáculos" ao crescimento econômico dentro das previsões para o milênio.
Regulamentações estatutárias protetoras - de salários mínimos à normas ocupacionais e de saúde - são, em geral, consideradas como "rigidez", "custos trabalhistas não-salariais", causa do "desemprego estrutural" e "empecilho ao investimento estrangeiro". O resultado tem-se apresentado como uma erosão global constante das  normas regulamentadoras protetoras institucionais e estatutárias. Não é correto chamar isso de "desregulamentação" - o termo é profundamente enganoso pois, no lugar de regulamentações estatutárias, protetoras e pró-coletivas, aparecem cada vez mais regulamentações pró-individualistas, anti-coletivas, fiscais e outras pró-mercado. Frequentemente, diretivas regulamentadoras são encaminhadas em nome de assegurar a "credibilidade nacional", na competição para atrair capital estrangeiro. Os diferenciais salariais têm aumentado e a desigualdade de renda, com certeza, está crescendo mais do que os dados disponíveis sugerem. O salário social, devido à erosão dos benefícios, tem caído, mais do que os salários em dinheiro sugerem; a renda de capital tem crescido mais rapidamente do que a renda proveniente do trabalho; os que recebem renda de capital e de empregos de altos salários têm conseguido evitar e sonegar impostos de forma mais eficiente e a incidência dos impostos mudou do capital para o trabalho. Os subsídios para os trabalhadores, suas famílias e suas comunidades foram retirados (como, por exemplo os subsídios para alimentos básicos), a título de eliminar "distorções de preço", enquanto os subsídios ao capital têm crescido enormemente, em nome de "encorajar" e "gratificar" empresas por criarem empregos e atrair e manter capital estrangeiro.
Alguns exemplos podem ilustrar este ponto. Recentemente, o estado do Alabama, nos Estados Unidos, conseguiu vencer outros lugares, na competição para atrair a Mercedes-Benz a estabelecer ali uma fábrica, concedendo à empresa um subsídio que chegava a US$ 148,000 para cada emprego criado. Há alguns anos atrás, o governo francês encorajou a Swatch a estabelecer uma fábrica em Lorraine, dando-lhe um subsídio que alcançava US$ 58,000 por emprego criado. Os sindicatos receberam bem essa política, mas observe-se o real significado.  Ao mesmo tempo, os governos, no mundo todo, vêm cortando os benefícios sociais e tornando-os mais seletivos, em nome de reduzir as despesas públicas e a "focalização", o que significa mais testes de meios, condições mais rígidas, e assim por diante. A proteção social vem sendo parcialmente privatizada, enquanto a insegurança econômica e social se aalastra no globo.
O que deveria nos preocupar são os custos sociais, ecológicos e societários da era de regulamentação do mercado, afirma Standing, inclusive os custos do desenvolvimento humano de crescentes desigualdades e inseguranças. Contra isso, devemos nos lembrar com otimismo que toda época de insegurança levou a uma época de luta redistributiva com algum sucesso. Necessitamos portanto para este século XXI,  uma nova visão de justiça redistributiva para guiar essa fase que inicia.
Qual seria a estratégia redistributiva adequada? Onde encontrar uma visão coerente do futuro e quais organizações poderiam proporcionar a liderança e pressão necessárias? Precisamos começar refletindo como o mundo intelectual muda na medida que a globalização avança. É fato que nos sentimos incomodados com palavras e idéias que, durante séculos, guiaram o progresso social - palavras como igualdade. A raiva está se perdendo em nós pensadores, professores, altos técnicos! Talvez agora, mais do que em qualquer outra época, sejamos privilegiados, sentindo-nos confortavelmente descolados dos medos, inseguranças, aspirações e valores dos pobres e destituídos. A tênue conexão da solidariedade social sempre foi uma ligação fundamentalmente emocional, que provém do sentido de uma história em comum, de um passado para o futuro. Agora, sobrevivemos numa sociedade mais marcadamente fragmentada, uma sociedade global, em que nós, especialistas e grupos de gabinete, não somos eles! Mudanças econômicas, tecnologia, flexibilização do mercado de trabalho, políticas sociais, tudo isso contribuiu para essa fragmentação. Mas, aí está ela.
Sabemos, toda época de triunfalismo capitalista, ou da ascensão ao poder da direita neoliberal, cria-se a base para renovar a luta social pela diminuição das desigualdades como para limitar os novos mecanismos de desigualdades . Em toda avanço tecnológico patrocinado pelos interesses dominantes capitalistas, em contrapartida eles clamaram por maior flexibilização das normas trabalhistas (ou seja lá qual for o termo corrente hoje) por parte dos trabalhadores nas negociações, e por maior "disciplina" sobre eles. Nestes períodos, percebemos então, que momentaneamente, a marcha de avanço pelo progresso social é detida sim, ou mesmo revertida. Então, logo que a visão de uma alternativa viável, negociável dentro das estruturas legais sociais, de um sistema de justiça distributiva se cristaliza, o Estado democrático se moverá a fim de reorganizar a economia da sua sociedade.
Esta deve ser a premissa dentro de um Estado democrático da retomada do avanço.