domingo, maio 28, 2017

É PRECISO PENSAR ESTRATEGICAMENTE O BRASIL PÓS LAVA-JATO


NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.ORG

" pode-se dizer que, em suma, os grandes desafios do Brasil são três: realizar as reformas, resgatar a chamada dívida social; e iniciar a transição para o desenvolvimento sustentável. Se tomarmos como horizonte estratégico o Brasil desejável em 2020, o enfrentamento desses desafios requer medidas de curto, médio e longo prazos, ou seja, requer a priorização de três agendas distintas, porém articuladas entre si... "

 Já se disse que pedir aos nossos partidos, salvo raríssimas exceções, que pensem um pouco além das próximas eleições é tarefa sabidamente difícil e inglória. As organizações políticas atuais não pensam estrategicamente o Brasil, seja por falta de consistência mesmo, seja porque não têm mais, ou nunca tiveram, uma utopia bem clara à sua frente - uma imagem de futuro capaz de nos atrair, passando ao mesmo tempo a confiança de que poderemos chegar lá. Assim, a política que praticam jamais consegue ser antecipatória daquele futuro que nós sociedade civil, desejamos e precisamos alcançar.

  A não ser que queiramos anunciar a vinda de um salvador, organizar um movimento messiânico de caráter apocalíptico que instaure, de repente, novos céus e nova terra - ou, simplesmente, enganar os outros - a primeira coisa que temos que assumir e dizer claramente, desvencilhando-nos das demagogias e mentiras que costumam se reunir em programas partidários, plataformas e discursos eleitorais, é que não há como produzir milagres, superando todos os nossos desafios estratégicos no curto prazo.

O Brasil precisa crescer para ter um futuro melhor é fato. Mas o crescimento de que precisamos para conseguir implementar, ao mesmo tempo, uma agenda social e uma agenda de desenvolvimento que mude  o perfil do País, não pode mais ser visto apenas como crescimento do produto interno ou da renda per capita. Se quisermos enfrentar com sucesso os nossos desafios, é necessário crescer também em termos de capital social, de capital empresarial e de capital humano.

 Desejável seria que o Brasil pudesse multiplicar por seis a sua renda per capita, atingindo valores como os que são apresentados, por exemplo, pelo Canadá. Mas isso não é possível, nem no curto, nem no médio prazo. E para atingirmos esse patamar no longo prazo, ou seja, ao final das próximas duas décadas – e serão longos e duros 20 anos -  tal esforço exigiria um crescimento a taxas médias superiores a 7% ao ano no período, o que se revela bastante improvável.  Numa prospectiva mais realista, podemos almejar atingir, em 2020, valores semelhantes aos da Espanha atual, o que implicaria triplicar a renda per capita do País. Mas isso também não pode ser conseguido no curto prazo e mesmo que o fosse, em virtude de algum fato extraordinário, não produziria os efeitos desejados - no que tange à inclusão dos excluídos e a instalação da transição.  Numa estimativa ainda mais modesta, supondo que a taxa de crescimento do PIB não ultrapasse, nos próximos dois anos, o valor de 3,5% e, de 2017 a 2020, o de 5% ao ano, mesmo assim seria possível imaginar, teoricamente, uma situação na qual a renda per capita dos 50% mais pobres passasse dos 1.200 dólares atuais para algo em torno de 4,2 mil dólares, desde que a renda dos 50% mais ricos ficasse congelada no seu valor atual de 8.800 dólares durante todo o período. Mas essa operação redistributiva exigiria uma mudança radical no atual modelo de desenvolvimento econômico, uma mudança no perfil de produção e de consumo e, consequentemente, um grau de efetividade da atuação estatal, de expansão da atividade empresarial e de organização social que não possuiremos enquanto o capital humano, o capital empresarial e o capital social permanecerem nos níveis atuais. Em outras palavras, sob qualquer hipótese, se a renda aumentar, ela tenderá a permanecer concentrada enquanto o conhecimento, a riqueza e o poder não forem melhor distribuídos.

 Na vanguarda do pensamento econômico deste início de milênio, fala-se hoje de um outro tipo de capital, sem o qual os projetos estatais de desenvolvimento e os empreendimentos privados empresariais, por mais bem arquitetados, orçados e implementados que forem, não poderão ser plenamente exitosos. Fala-se do conceito de "capital social". Faz enorme diferença se temos uma sociedade desenvolvida, entrelaçada na sua base, organizada por miríades de instituições de opinião e interesse, ou se temos uma sociedade incipiente do ponto de vista organizacional. Essa diferença é o capital social. Já se comprova, pelo menos empiricamente, a relação direta entre os graus de associacionismo, confiança e cooperação atingidos por uma sociedade democrática, organizada do ponto de vista cívico e cidadão e a boa governança e a prosperidade econômica. Tal relação pode ser compreendida como capital social.

Assim, sem capital social – e sem a consequente democracia - não há participação da sociedade, potencialização dos esforços, aproveitamento dos recursos públicos, rede social de apoio às atividades privadas de caráter lucrativo e não-lucrativo, controle sobre o Estado e orientação social do Mercado. Investir na organização da sociedade civil é, portanto, uma orientação estratégica que deve ser adotada, para além das conhecidas razões de democracia e de cidadania, por motivos econômicos. O capital social passa, então, a fazer parte da equação macroeconômica do desenvolvimento, constituindo, juntamente com o capital empresarial e com o capital humano - quer dizer, a riqueza e o conhecimento - uma de suas principais variáveis.

No capital social, desejável seria que, em 2020, pudéssemos ter multiplicado por dez o número das organizações da sociedade civil que existem hoje no Brasil. Chamamos aqui de organizações da sociedade civil as entidades do Terceiro Setor, que não pertencem ao Estado nem ao Mercado, e que são, portanto, sem fins lucrativos, quer dizer, não distribuem eventuais lucros arrecadados com suas atividades entre os seus diretores ou associados. Estima-se que no Brasil existam conforme dados de 2010,  290,7 mil Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos (Fasfil)  voltadas, predominantemente, à religião (28,5%), associações patronais e profissionais(15,5%) e ao desenvolvimento e defesa de direitos (14,6%). As áreas de saúde, educação, pesquisa e assistência social (políticas governamentais) totalizavam 54,1 mil entidades (18,6%). As Fasfil concentravam-se na região Sudeste (44,2%), Nordeste (22,9%) e Sul (21,5%), estando menos presentes no Norte (4,9%) e Centro-Oeste (6,5%). Dessas instituições, 72,2% (210,0 mil) não possuíam sequer um empregado formalizado, apoiando-se em trabalho voluntário e prestação de serviços autônomos. Nas demais, estavam empregadas, em 2010, 2,1 milhões de pessoas, sendo intensa a presença feminina (62,9%). Porém, a remuneração média das mulheres (R$ 1.489,25) equivalia a 75,2% da remuneração média dos homens (R$ 1.980,08), sendo para o total dos assalariados, R$ 1.667,05 mensais naquele ano. Quanto ao nível de escolaridade, embora 33,0% dos assalariados dessas entidades possuíssem nível superior, quase o dobro do observado para o total das organizações (16,6%), sua remuneração era de 5,8 salários mínimos, bem menor do que a dos assalariados do total das organizações do CEMPRE - 7,6 salários mínimos.
   O Brasil tem condições de passar, ao final dos próximos vinte anos, da taxa atual de uma organização da sociedade civil para cada 658 habitantes (aproximadamente, e na pior estimativa), para uma organização para cada 60 a 70 habitantes, triplicando o movimento de recursos do Terceiro Setor por organização para alcançar o equivalente a 5% do PIB. Sem dúvida estamos projetando o modelo de uma sociedade muito mais organizada, muito mais "tramada" do que a atual, mas não impossível.

Nos sete países para os quais se dispõem de dados estatísticos (Estados Unidos, Alemanha, Japão, França, Inglaterra, Itália e Hungria) o Terceiro Setor emprega 11,7 milhões de pessoas em tempo integral e mobiliza recursos da ordem de 601,6 bilhões de dólares ao ano.

Para atingir tais patamares não se pode apenas esperar o crescimento "natural" do Terceiro Setor, que, em si, já é vertiginoso no Brasil e em outras partes do mundo. É necessário estimulá-lo e isso pode ser feito basicamente de duas maneiras: mudando o marco legal, regulatório das relações dessas organizações com o Estado e do Estado com o Mercado e, simultaneamente, mudando o desenho das políticas públicas governamentais, de sorte a transformá-las em políticas públicas de parceria entre Estado e Sociedade Civil, com a incorporação das organizações da sociedade civil na sua elaboração, na sua execução e na sua fiscalização.  Por exemplo, um programa de acompanhamento escolar, com o objetivo de complementar o trabalho da escola e da família no sucesso escolar da criança, pode envolver, no curto prazo, cerca de 80 mil organizações da sociedade civil, atendendo ao universo de 8 milhões de crianças do ensino fundamental que apresentam defasagem série / idade e são candidatas preferenciais ao insucesso. Dotando cada uma dessas organizações de uma renda de 12 mil dólares / ano, é possível quase quadruplicar este capital, alavancando novos recursos.

Isso é vantajoso não apenas do ponto de vista estratégico macroeconômico, por aumentar a taxa de capital social do País, mas inclusive do ponto de vista econômico stricto sensu. A capilaridade, a versatilidade, a flexibilidade e a capacidade de recrutar trabalho voluntário multiplicando os recursos existentes, tendem a tornar, além de mais eficientes as políticas públicas, mais vantajosas economicamente as parcerias com a sociedade. Uma sociedade civil que dá essa contribuição ao país e não ao Estado, está, além disso, viabilizando postos de trabalho, criando novas ocupações e assumindo a cidadania como responsabilidade, contribuindo também para tornar mais solidário e mais humano o processo de desenvolvimento.

Existem, além disso, políticas públicas em formação que jamais atingirão seu público-alvo sem a participação das organizações da sociedade civil, como é o caso do microcrédito ou do crédito produtivo popular, cuja oferta precisa ser enormemente multiplicada, no curto prazo, a fim de criar novas oportunidades de ocupação e renda, de empreendedorismo, num período em que as taxas de desemprego não dão sinais de queda.  
Daqui para a frente a tendência é a de que o público-social e o privado não-lucrativo criem saídas para os impasses gerados no embate de alternativas público-estatal versus privado. Formas inovadoras de captação de poupança popular, de previdência pública não-estatal, de "empresa social", além de outros empreendimentos associativos voltados para promoção de benefícios mútuos, como as caixas, os fundos rotativos e os planos de saúde comunitários, devem, portanto, se consolidar e se expandir ainda no curto prazo. Tudo isso, é claro, desde que exista um marco legal adequado.

E, mais ainda, neste momento de expansão da industrialização para o interior, via revitalização da malha ferroviária, sendo os canais de integração uma via de duas mãos, uma das medidas possíveis de fixar a mão de obra não qualificada nômade,  é precisamente a parceria Estado e Terceiro Setor como um braço emergencial de fixação e qualificação do capital humano local.


















sábado, maio 27, 2017

CHINA, A FILOSOFIA DE CONFÚCIO, E A POLÍTICA ECONOMICA DO PRESIDENTE XI JINPING PARA AMÉRICA LATINA


NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.ORG

Técnicos estrategistas de negócios, tem se envolvido em teorias, números e complexos problemas de exportação, especialmente para os mercados do primeiro mundo como EUA e Comunidade Europeia, onde os consumidores são extremamente exigentes. Fato é que são claramente visíveis os sinais de um deslocamento econômico dos mercados. Taxas de juros, flutuação das moedas, aumento dramático de desemprego, preços do petróleo voláteis e tensões explosivas no comércio internacional atormentam o mundo. As causas? Alguns alegam que o custo de mão-de-obra excessivamente alto é o culpado; outros apontam as deficiências no gerenciamento das empresas; e muitos incriminam as políticas econômicas dos governos, ou a falta delas. Alguns ocidentais responsabilizam os altos impostos praticados, enquanto outros acusam os chineses e sua crescente expansão pelo planeta. Os nacionalistas acusam os investimentos estrangeiros que deixam sem trabalho os trabalhadores nativos, enquanto outros condenam nações estrangeiras que fecham suas portas aos produtos importados. Poucos concordam com as causas, quanto menos com as consequências dos percalços da Economia.
Há uma dose de verdade em cada uma dessas afirmações. Mas, nenhuma delas, isoladamente ou em conjunto, ajuda a compreender o contexto econômico ou como competir dentro dele.

Então, o que é que está de fato acontecendo, questionam os estrategistas de negócios. Dizem, existem três forças de mudanças fundamentais, apesar de não exaustivas, exercendo sua influência sobre o ambiente econômico: (1) o crescimento da produção capital intensivo; (2) o ritmo acelerado das novas tecnologias; e (3) a concentração do consumo. E aí surge uma reação jacobina a essas forças: o protecionismo.
Juntas, essas correntes estão transformando os padrões de poder dentro das indústrias, entre as indústrias, na economia dos países desenvolvidos, e entre esses países, a nível regional e global.

Há umas cinco décadas a empresa “multinacional” era a forma tradicional de empresa atuante fora do país de origem, onde a matriz dominava e se encarregava de todo o planejamento, do controle sobre a produção e os empregos com respectivas políticas de salários. Os recursos eram colocados de acordo com o plano geral da multinacional, dando-se preferência ao mercado doméstico e às grandes operações, sem   levar em conta a importância estratégica da região alheia. Por exemplo, se os negócios na Tailândia eram grandes por uma coincidência qualquer, canalizavam-se para lá os melhores talentos e as prioridades mais altas.  A matriz, com isso, acabava adquirindo força demais, e os negócios passavam a ser vistos dos escritórios luxuosos de Park Avenue, de Marunouchi ou Saint James, absolutamente distantes da realidade e necessidades locais.

As empresas atuais mudaram sua estratégia de ação global e modelaram-se como “multilocais” – substituindo as multinacionais – e constituem uma abordagem eficiente, dizem os entendidos, para uma interiorização perfeita com equipes de gerentes nativos, cada um no seu próprio país. Os talentos únicos locais são encorajados à autonomia, de maneira que a empresa organizada por eles seja diferente no que se refere à admissão e promoção de pessoal, de política de salários, e adaptada perfeitamente aos costumes da comunidade local onde está inserida. Portanto o LOCAL passa a ter importância estratégica para o desenvolvimento sustentável e aceitação social.

Recentemente, o estrategista econômico Keniche Ohmae, numa de suas conferências sobre estratégias de negócios no mundo globalizado, explicou que o conceito de “ser de casa” tornou-se o princípio base de ação e eficiência das empresas multilocais. Isto porque  as preferências dos consumidores variam de cultura para cultura e os produtos devem, portanto, reagir às necessidades locais destes mercados, ou seja, desconcentrar a produção unicamente para o mercado da Tríade Comunidade Europeia,  EUA, e Japão.

Lendo sobre o Presidente da China Xi Jinping e de sua grande admiração pela filosofia de Confúcio, mais especificamente sobre  a filosofia descrita nos Analectos REN, YI, LI, XIAO e XIN ( cinco princípios morais que determinam um comportamento benevolente, isto é, o respeito aos valores diferentes dos próprios pois este respeito, precisamente, permitirá o diálogo e a interação entre pessoas, culturas e Estados), percebi que a estratégia política adotada pelas empresas “multilocais” é fundamentada pela mesma filosofia confucionista de estimular o comportamento de integração, para assim ter a harmonia entre pessoas, meio ambiente e Estado. Lincando mais adiante, percebi ainda que é possível encaixar também na mesma filosofia, o mega projeto do Presidente Xi, Rotas e Caminhos da Seda, pela  revitalização e expansão da malha ferroviária através dos continentes, como foi proposta no projeto, e, desta forma,   abrindo o canal de comunicação/integração entre várias regiões e culturas, assim alavancando a industrialização, harmonizando o desenvolvimento pela criação de novos mercados com a consequente facilitação da instalação das empresas multilocais. 

Há poucos meses o Presidente Macri da Argentina, assinou contrato de parceria com a China justamente para revitalização da malha ferroviária de aproximadamente 38 mil quilômetros de extensão, ligando desde a Patagônia até o norte e divisa com o Chile. Este, por sua vez, já está com acordos de revitalização da sua malha ferroviária assim como todos os demais países do bloco da Comunidade Andina integrando toda a costa latino-americana do Pacífico. A China segue convicta sua filosofia de integração.  

Sabemos, no espaço globalizado contemporâneo, emergem novas potências econômicas e se reorganizam as relações entre os focos tradicionais de poder. Ao mesmo tempo, sob o impacto de uma revolução tecnocientífica, todo o processo produtivo se transforma. As repercussões dessas mudanças nas regiões industrializadas ou não, nas economias urbanas e nas estruturas de emprego/salários configuram verdadeiros cataclismos. Um mundo está morrendo e um outro está nascendo! E é uma mudança irreversível. 

Embora não esteja ainda informada sobre os resultados e números com relação ao projeto Rota e Caminhos da Seda, me assalta a preocupação quanto à implantação de igual projeto na América Latina   quanto às diferenças gritantes de desenvolvimento entre uma região e outra, provocando um impacto que se desencadeie em graves conflitos sociais. Partindo da premissa que a tal  integração  é uma via  de duas mãos, ou seja, a abertura de canais de mobilidade entre o interior e os grandes centros via revitalização de toda malha ferroviária, propiciará tanto a chegada de empresas e absorção de mão de obra local ou, ao contrário, sem a contrapartida eficiente do governo numa década, pelo menos, a mão de obra escapulirá do interior para a ilusão do emprego rápido nos grandes centros, superlotando ainda mais as favelas e somando ao índice de desemprego. 
Uma das características do processo de industrialização é justamente o nomadismo da mão-de-obra não especializada.
  









terça-feira, maio 02, 2017

ELEIÇÕES LÁ E AQUI: IDEOLOGIAS DE ESQUERDA OU DIREITA INDICARÃO ESTRATÉGIAECONÔMICA EFICIENTE PARA A PRÓXIMA DÉCADA

                                       NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID

Parte 1
O  populismo/nacionalismo da direita ressuscitado nas últimas eleições em vários países ocidentais com ressalva para a Europa central, parece diagnosticar o fim do modelo de Estado social-democrata proposto por Keynes.
 Lendo sobre a crise do Estado intervencionista e a busca da “terceira via”, autores comentam que o socialismo de reforma foi arruinado uma primeira vez nos anos setenta. Argumentam que com o primeiro choque de energia do petróleo, a social-democracia, que visava juntar a eficácia do mercado e a intervenção do Estado, defrontou-se com obstáculos insuperáveis daí a falência ou ineficiência. A incapacidade do Estado-providência em mobilizar alavancas financeiras suficientes - por isso de assumir as tarefas de impulsão e de redistribuição que se tinha fixado - põe brutalmente fim à ambição de uma regulamentação política da economia são os dados oferecidos pelos economistas.

A partir do final dos anos setenta a maioria dos governos acabou com as políticas nacionalistas keynesianas (Keynes teoriza contrário ao laissez-faire na economia, propondo intervenções corretivas por parte do Governo na economia, manipulando políticas fiscais).  As teses "neoliberais", que poucos economistas persistiam em defender, ressurgem agora nas eleições, com força, ao ponto de se tomar em poucos anos a nova ortodoxia econômica. Elas incitam, de modo geral, os gestores políticos a aliviar a intervenção do governo pela privatização de empresas públicas, pela redução dos déficits públicos, pela transferência da gestão de bens coletivos para o setor privado (saúde, educação, transportes) e a limitação da pressão fiscal. Saída exatamente oposta ao Keynesianismo. Ronald Reagan nos Estados Unidos, Margaret Thatcher na Grã-Bretanha se fazem os novos arautos dessa grande virada da ideologia da direita neoliberal.

A globalização dos mercados e dos sistemas de comunicação atuais condenam, uma segunda vez, toda ideia de regulação da economia pelo Estado. Certamente, a "globalização" ou "mundialização" econômica não é um fenômeno novo, mas sua intensificação nos anos de 1990-2000 reduziu consideravelmente a capacidade de intervenção dos governos no setor econômico. Tais decisões levam ao desenvolvimento das trocas em escala internacional reforçando a interdependência dos mercados, favorecendo o processo de concentração das empresas em grandes multinacionais e contribuindo igualmente para a ascensão de um capitalismo financeiro internacional que, hoje, ultrapassa amplamente em valor o capitalismo industrial e bancário. As grandes empresas não estão mais ligadas aos mercados nacionais, sim, estão colocadas sob a dependência de um mercado por ações globais, enquanto que os movimentos de capitais escapam ao controle dos bancos centrais. Todas essas evoluções conjugadas privam os governos de duas alavancas que lhes permitiriam intervir na economia: o controle do setor bancário e a influência sobre as grandes empresas nacionalizadas. Frente aos mercados, especialmente aos comportamentos erráticos das bolsas, seus poderes hoje são irrisórios. Nesse contexto marcado pelo desaparecimento de economias dirigidas, os socialistas democráticos não têm mais um   modelo a defender. Veem-se obrigados a buscar novos campos de reivindicação sob pena de perder uma parte de seu eleitorado. É o socialismo na busca desesperada de uma "terceira via alternativa”.

 Na véspera do terceiro milênio, todos os partidos europeus revisaram seu edificio doutrinal e, quando não o fizeram, depuraram seu discurso. Exemplos são o Partido Trabalhista inglês (renomeado em 1997 New Labour) que realizou a revisão ideológica mais substancial, ao qual se juntou o social-democrata SPD em 2000. Ao mesmo tempo em que condenava a política ultraliberal dos anos de Thatcher, o partido de Tony Blair de fato decretou publicamente, sob o impulso de sua ala modernizadora, que “a luta de classes terminara e que não existia mas conflito entre socialismo e liberalismo”. O New Labour, ,confirmam os economistas, pretende buscar uma "terceira via" num mix de um "socialismo/ liberal" que se dissocie claramente da social-democracia do pós-guerra. Seu principal teórico é Anthony Giddens,  é o autor de um projeto cuja ambição é superar ao mesmo tempo o socialismo intervencionista e o ultraliberalismo conservador (Beyond left and right, 1994; The third way, 2000). Segundo ele, a vocação do Estado-providência de organizar a solidariedade não é mais imaginável numa sociedade marcada pelo aumento dos custos e pela multiplicação dos riscos coletivos. O sociólogo inglês propõe ainda limitar o papel das instituições públicas (diminuição do peso das administrações e a redução dos orçamentos) e recorrer aos organismos privados para realizar missões de serviço público tendo em vista que sua ação é comprovadamente mais eficaz. Deseja, no domínio econômico, “restaurar uma ética de responsabilidade” a qual dê lugar às iniciativas privadas e aceite o jogo da livre concorrência. Enfim, no domínio do trabalho, reconhece o interesse da “flexibilidade” e milita pela mitigação das coações jurídicas que pesam sobre o emprego. De uma maneira geral, os partidários políticos da “terceira via” pretendem seguir um procedimento essencialmente pragmático, rejeitando as ideologias de direita ou esquerda. Consideram apenas que o liberalismo é o único sistema capaz de proteger a liberdade do indivíduo e, neste sentido, o menos pior dos sistemas socioeconômicos. A “diferença” em relação aos neoliberais reside na vontade de cuidar da igualdade de oportunidades e da proteção dos direitos sociais. Sem revoluções nem grandes transformações.

O "socialismo liberal" britânico observam os economistas, tem o mérito de tentar assumir intelectualmente uma virada ideológica aceita na prática pela maioria dos dirigentes socialistas europeus. Mas se afasta, ao mesmo tempo, de reivindicações que continuam no centro do debate público. Num mundo em que os interesses dos detentores de capitais podem revelar-se contrários aos interesses dos assalariados (multiplicação das dispensas causadas pelo movimento nas bolsas, desenvolvimento da precariedade do emprego), os socialistas liberais britânicos se abstêm de se pronunciar sobre a hierarquia entre o trabalho e o capital. Sobretudo, não colocam mais a questão da igualdade no centro de seu projeto, a não ser a igualdade de oportunidades. Enfim, respondendo às expectativas da classe média, afasta-se   cada vez mais das categorias sociais mais desfavorecidas como os imigrantes e os trabalhadores de fato. O “novo trabalhismo da classe média”   suscita reações e críticas bastante fortes na França e na Itália. Todavia, é a expressão de uma sensibilidade hoje presente na maioria dos partidos socialistas europeus.

A adesão dos “socialistas da terceira via” à sociedade de mercado e à gestão governamental, às quais se acrescenta uma desconsideração geral dos eleitores em relação aos partidos políticos tradicionais, tornam os partidos socialistas cada vez menos atraentes para o eleitorado protestatório. Tendo perdido simultaneamente sua função de “tribuna” (a captação do voto contestatório), sua originalidade ideológica de alternativa ao liberalismo econômico, ainda, com uma grande parte de seus associados dos sindicatos fora dos meios populares, os socialistas/liberais têm hoje uma identidade embaralhada ou falta de identidade total. Deixam vazio um espaço eleitoral para o qual se precipitam os partidos populistas e nacionalistas da direita neoliberal e os movimentos das esquerdas radicais.

"Esquerda radical", "nova esquerda", "esquerda associativa", são denominações que não evocam  ideologia marxista ou políticos carismáticos em particular. Com estas expressões jornalistas e filósofos designam uma nebulosa de associações, de movimentos sindicais, de pequenos grupos com estrutura solta que, desde 2000 denunciam os desequilíbrios e as desigualdades causadas pela globalização da economia liberal. Sua mensagem protestatória, sua recusa a se engajar nas normas eleitorais, seu sucesso mediático, seu investimento nas redes sociais e seu ativismo no cenário internacional,  fazem deles os principais atores dos conflitos sociais e movimentos contemporâneo. Ao “ocupar” o espaço deixado pelos partidos políticos  e pelos sindicatos, esses movimentos reatam com três orientações fundadoras do socialismo: a crítica global da ordem econômica liberal; o desejo de organizar as regras do mercado e de realizar uma redistribuição equitativa das riquezas e a preferência pelas estratégias de ação direta em vez da participação no jogo parlamentar. No entanto, estas novas mobilizações não deverão ser confundidas com os movimentos operários do segundo período da industrialização e a divisão de classes, sim, um  engajamento  radical que associa reivindicações outras, globais, como a proteção do meio ambiente e da saúde, o respeito pela dignidade humana, o direito à diversidade cultural ou à autonomia regional, a proteção das minorias ou mais simplesmente o direito ao desenvolvimento individual. Mais, ao contrário dos partidos de esquerda tradicionais, tais movimentos contemporâneos da esquerda protestatória são   totalmente hostis a toda forma de controle hierarquizado e pretendem fazer funcionar um modelo de democracia direta, o que se traduz, conforme interpretação geral, por uma forte descentralização e pela ausência de organização piramidal, consequência direta da era digital e redes sociais, não mais das relações analógicas.


Em síntese, estes movimentos contestatórios não se identificam com uma "classe social de operários explorados pela mais-valia" que lutava contra uma outra classe que os explorava. Esses movimentos permanecem por enquanto confinados a um papel de protesto antiliberal e, por esta razão, têm dificuldade de encontrar a coerência política e intelectual que poderia transformá-los em verdadeiros atores e líderes do contra poder. 

sexta-feira, abril 21, 2017

FRANÇA: CANDIDATOS "CARISMÁTICOS" NAS ELEIÇÕES DE DOMINGO PRÓXIMO


                                                    NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.org

O conceito do “carisma” descreve uma qualidade  extraordinária de liderança , autoridade quase heroica, de um indivíduo frente a seguidores. As origens um tanto obscuras são do antigo uso cristão, em que significava "o dom da graça".

No século XX  o conceito de liderança carismática já era inseparável do pensamento do sociólogo Max Weber (1864-1920).
Na análise de Weber, ter carisma indica uma qualidade excepcional (real ou imaginária) possuída por um indivíduo que é capaz de exercer influência quase hipnótica sobre um grupo de admiradores. O carisma é, ainda sob Weber, capaz de assumir toda uma variedade de aparências correspondendo  à influência no militar, na aatuação política e na religiosa, e sua consequência imediata é afetar os comportamentos cotidianos dos que ficam sob o seu efeito, isto porque carrega uma mística, um messianismo fantasiaso embora seja uma real forma de dominação e autoridade.

Weber contrasta essa forma de dominação não-ortodoxa, de forte carga emocional  com duas outras: a liderança  tradicional (em que a obediência se baseia no costume e na reverência ao precedente, típica das sociedades pré-industriais) e a liderança  jurídico-racional (característica atual onde a conformidade às regras e procedimentos juridicamente estabelecidos são massivamente executados, e onde a submissão é, tipicamente, devida mais à posição do Cargo do que à pessoa). Os modos de dominação tradicional e jurídico-racional são marcadamente diferentes em muitos aspectos. Mesmo assim, ambos compartilham a mesma qualidade tediosa de serem estruturas estáveis, rotineiras e relativamente previsíveis no dia-a-dia. O carisma é explosivo porque expressa emoções, desafia abertamente os modos tradicionais, despreza a rigidez da legalidade impessoal e, em sua forma aguda, volúvel e efêmero.

Quatro aspectos adicionais da discussão de Weber são dignos de nota ainda: as qualidades éticas do líder carismático são irrelevantes para o exercício da liderança; seu dinamismo como indivíduo carismático é que é crucial; o carisma é um fenômeno contingente; a existência e a duração do encanto do carisma dependem, acima de tudo, da reação dos seguidores, ou seja, para manter seu fascínio sobre corações e mentes, o carismático deve ser continuamente exibido e aprovado, por exemplo, as campanhas militares brilhantes e muito festejadas para a população, de Napoleão Bonaparte na França ou de Julio Cesar em Roma. 
É quando a devoção se transforma em indiferença que a mágica do carisma se evapora, então, alerta o Autor, o papel político de líder carismático desaparece sem deixar marcas. 

A contribuição do carisma à estabilidade social, explica Weber, ainda, diferentemente dos movimentos  revolucionários lliderados por partidos ou religiões, se relaciona às questões extremas, urgentes e dolorosas, de forma que o carisma diz respeito à necessidade de “coerência e acomodação" social. Assim, o carisma pode ser um marketing estratégico que se transforma em uma força  útil na manutenção da ordem social, e não ao contrário, com atos estimulantes da ruptura de estruturas sociais.
 Em síntese, eu concluo, o personagem e seu discurso carismático atuam  como legítimos defensores do status quo, sem mudanças substanciais e de iniciativa popular, mesmo que o discurso do líder carismático diga ao contrário.

O cotado novo possível presidente da França Jean-Luc Mélenchon, candidato da ultrarradical esquerda francesa, com seu slogan por “uma França insubmissa" (Talvez  revolucionária? Anarquista?) a meu ver, personifica um autêntico carismático  com seu discurso emocionado e algo teatral, inflamando os franceses da periferia, sua clientela seguidora e sem as luzes tradiconais. Manifesta-se como a mais perfeita personagem do carisma entre os 11 candidatos,também com o mesmo marketing carismático, cujo objetivo mais parece a busca seguidores emotivos, desejosos de um salvador, do que de eleitores. 

 esta é a face mais decadente da França nos últimos tempos : políticos e política incompreensível porque as verdades dos conflitos sociais se escondem em falsas ideias, propostas maquiadas pela trapaça,  comandam os discursos de todos os candidatos independentes de ideologias, numa competição irracional de imoralidade e pouca ou nenhuma ética.

   Estou decepcionada é evidente e este texto é quase um desabafo! Porém, já ouço vozes me acusando: como podes estar falando da má política francesa com tal baixeza na política brasileira? 

_ É um macaco de rabo muito comprido falando do comprimento do rabo do outro!


sábado, abril 15, 2017

"CANAL DO PANAMÁ CHINÊS": GEOPOLÍTICA AMBICIOSA DA CHINA PARA AMÉRICA LATINA E ALAVANCA AO DESENVOLVIMENTO DO BRASIL?


                                                                  NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.org

As grandes reservas de hidrocarbonetos estão na Arábia Saudita, dependente dos EUA desde que estes expulsaram a Inglaterra de lá numa mini-guerra que aconteceu durante a 2ª Guerra Mundial. Os EUA continuam sendo, de longe, o maior investidor na Arábia Saudita e seu principal parceiro comercial, e a Arábia Saudita ajuda a apoiar a economia dos EUA através de investimentos.
Entretanto, mais da metade das exportações de petróleo sauditas vão agora para a Ásia, e seus planos de crescimento apontam para o leste. O mesmo pode ser verdade para o Iraque, país que tem as segundas maiores reservas do mundo, se conseguir se reconstruir depois da destruição massiva das sanções assassinas dos EUA e Reino Unido e da invasão. E as políticas norteamericanas estão levando o Irã, o terceiro maior produtor, na mesma direção.

A China é hoje a maior importadora do petróleo do Oriente Médio e a maior exportadora para a região, substituindo os Estados Unidos. As relações comerciais estão crescendo rápido, e dobraram nos últimos cinco anos. As implicações para a ordem mundial são significativas, à medida que a ascensão silenciosa da Organização para a Cooperação de Xangai, que inclui a maior parte da Ásia, mas baniu os EUA –potencialmente “um novo cartel de energia que envolve tanto os produtores quanto os consumidores”, observa o economista Stephen King, autor de “Losing Control: The Emerging Threats do Western Prosperity” (algo como “Perdendo o Controle: As Novas Ameaças à Prosperidade Ocidental”).

Nos círculos políticos do Ocidente e entre os comentaristas políticos, 2010 foi “o ano do Irã”. A ameaça iraniana foi considerada como o maior perigo para a ordem mundial e o foco principal da política estrangeira norte-americana, com a Europa seguindo educadamente. Reconhece-se oficialmente que a ameaça não foi militar: em vez disso, trata-se da ameaça de independência. Para manter a “estabilidade”, os EUA impuseram sanções duras sobre o Irã, mas fora a Europa, poucos estão prestando atenção. Os países não aliados –a maior parte do mundo – se opuseram fortemente à política norte-americana em relação ao Irã durante anos. A Turquia e o Paquistão estão construindo novos oleodutos até o Irã, e o comércio está aumentando. A opinião pública árabe está tão irritada com as políticas ocidentais que uma maioria até mesmo é a favor do desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã. Assim, tal conflito beneficia a China. “Os investidores chineses e comerciantes preenchem um vácuo no Irã à medida que empresas de vários outros países, especialmente da Europa, retiram-se”, informou Clayton Jones no The Christian Science Monitor.

Washington está reagindo com um certo desespero. Em agosto, o Departamento de Estado alertou que “se a China quiser fazer negócios em todo o mundo ela também terá que proteger sua própria reputação, e se ela quiser a reputação de um país que está disposto a ignorar e fugir das responsabilidades internacionais, isso terá um impacto de longo prazo... suas responsabilidades internacionais estão claras” –nomeadamente, seguir as ordens dos EUA. É improvável que os líderes chineses se impressionem com esse discurso, a linguagem de uma potência imperial tentando desesperadamente se agarrar à autoridade que já não possui mais. Uma ameaça muito maior à dominação do que o Irã é a recusa da China em  “obedecer ordens” – e de fato, como uma grande potência em crescimento que se mostra flagrantemente, rejeita-as com despeito.

A corrida chinesa rumo ao status de superpotência econômica se deveu sobretudo ao extraordinário sucesso na aplicação de uma estratégia de nação-comerciante. Isso gerou perceptível desproporção da presença chinesa em diferentes âmbitos das relações econômicas internacionais. O gigantismo comercial da China, que há dois anos converteu-se na maior exportadora/ importadora do mundo, não se fez acompanhar do papel do país como grande fonte de investimentos estrangeiros diretos. A recente visita de Li Keqiang ao Brasil e outros países sul-americanos mostra, porém, que isto está mudando. O  itinerário de Li Keqiang pela América do Sul também o levou à Colômbia, Peru e Chile. Num primeiro exame, vê-se que o interesse chinês nesses três países reproduz o padrão maior das relações China-América Latina. Por um lado, exportações de bens manufaturados chineses, com cada vez mais componentes de alta tecnologia; por outro, oferta assegurada à China de bens primários.
Tais nações, no entanto, apresentam um cálculo a mais para Pequim: todas estão engajadas, junto com o México, na chamada Aliança do Pacífico, bloco latino-americano orientado não às antigas teses de substituição de importações, mas à promoção de exportações. Peru e Chile, juntamente com México e outros países da Ásia e Oceania, estão na chamada Parceria para Comércio e Investimento do Pacífico (TPP), o que traz desafios geoeconômicos distintos de uma perspectiva de Pequim – que também deseja negociar uma grande área de cooperação econômica para o Pacífico, a Alcap- Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico. Esta foi a grande iniciativa de Xi Jinping durante a reunião de cúpula da Apec - Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico, realizada na capital chinesa. Com ela, somada ao marcado interesse na África e na América Latina, a China dá provas definitivas que sua extroversão para o século XXI.

E o Brasil nessa história?  Sabemos, apresentamos ainda pujante força de empresariado industrial, apesar de desnacionalizado e cada vez menos competitivo. Nesse sentido, nossos vizinhos sul-americanos são ainda mais vulneráveis que o Brasil a uma redução do apetite da demanda chinesa por matérias-primas ou mesmo à queda generalizada do preço internacional das commodities nos últimos anos. O Brasil ainda é a segunda maior economia emergente, menor apenas que a China, embora deva perder este posto para a Índia.  Já no que diz respeito ao México, as motivações do investimento chinês são diferentes. Na condição de membro do NAFTA - Acordo de Livre Comércio da América do Norte, e associado a tratados econômicos com a União Europeia em diferentes setores, o México tende a atrair capitais chineses que buscam acesso privilegiado a esses mercados mais maduros. A expectativa dos chineses é a de que, ao instalarem plantas produtivas no México, suas exportações a partir deste país sejam tratadas como exportações mexicanas e não norte-americanas como hoje são as das indústrias maquiadoras.

O capital chinês voltado à infraestrutura poderia ser avaliado como muito bem-vindo para o Brasil:  a China aumentaria seu papel como investidor no Brasil em ao menos três modalidades, ou seja, a natureza do investimento chinês no Brasil seria distinta, pois a maior parte do aporte de capital em empresas não visaria fazer do Brasil uma grande plataforma de exportações, mas sobretudo, focar-se na provisão ao mercado interno brasileiro. Nesse contexto, o lote de capital posto à disposição do Brasil pela China, sem dúvida, contribuiria ao fortalecimento da infraestrutura no País. Conjunturalmente, o ajuste fiscal brasileiro restringiria novos comprometimentos orçamentários e, mesmo antes da desacerto macroeconômico dos últimos anos, o Brasil já vinha com uma taxa média de investimento em torno de apenas 16% do PIB, nível bastante abaixo dos países emergentes mais dinâmicos.

Existe o aporte direto de companhias chinesas que estão comprando grande número de ativos empresariais brasileiros. Este tem sido um exemplo bem comum em diferentes elos da cadeia produtiva do agronegócio ou da energia, como enriquecimento de sementes ou painéis fotovoltaicos. Isso configura transferência de propriedade e, às vezes, desnacionalização, mas é um processo que geralmente vem acompanhado de novos investimentos na planta produtiva. Há também o investimento do tipo “greenfield” em atividades essencialmente novas, como a montadora de veículos Chery, que se instala no Estado de São Paulo. Disponibilizam-se igualmente recursos por parte de uma instituição de fomento chinesa como o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), que está criando um fundo de US$ 50 bilhões acessível por meio de instituições brasileiras. É este tipo de aporte de capital que aparentemente se orientará para viabilizar um empreendimento conjunto para produzir aço no Brasil ou ainda financiar a linha ferroviária   “Bioceânica” da costa brasileira no Atlântico, do porto de Açu, até a costa peruana no Pacífico no porto de Ilo, a fim de reduzir custos de exportações para a China. Ou o que os especialistas estão chamando de o “Canal do Panamá chinês”, já que o canal do Panamá original pertence aos EUA.

Os impactos de tal ligação ferroviária podem ser muito positivos na diminuição do custo logístico embutido, sobretudo em commodities agrícolas e minerais. Aqui, para o produtor, a economia pode chegar a 40%, montante passível de ser reinvestido no aumento da produção ou mesmo no componente de maior valor agregado para o produto final. Quanto ao período logístico interno no Brasil, estudos tem mostrado  que, se alterarmos a composição de nossa pobre infraestrutura multimodal (hoje fortemente concentrada na rodovia) em favor do transporte ferroviário de cargas, mesmo o de baixa velocidade, o tempo despendido do ponto de origem no interior do país até um porto oceânico exportador seria cortado pela metade.
Para a China, é estratégico garantir que a América Latina possa cumprir seu papel como provedora de commodities.
Ambientalistas brasileiros já se movimentam contra o projeto. Hoje, no entanto, tecnologias ferroviárias mais avançadas são de pequeno impacto sobre o ambiente. País algum do mundo teve seu patrimônio ambiental seriamente ameaçado pela expansão da malha ferroviária. No Brasil, então, essa discussão carece de histórico relevante. Há menos quilômetros de extensão ferroviária em operação hoje no Brasil do que nos Estados Unidos no início da Guerra Civil. Além disso, os líderes do projeto podem constituir fundos específicos a partir da operação lucrativa da linha, de modo a que recursos sejam revertidos em prol da sustentabilidade.
Para a China, evidente, é estratégico garantir que a América Latina possa cumprir seu papel como provedora das commodities agrícolas e minerais de que os chineses tanto necessitam. Com esse intuito, a China irrigará com pesados recursos a fraca infraestrutura dos países latinos. Pequim dimensiona pragmaticamente seus interesses na região, ou seja, a América Latina é primordialmente fonte de matérias-primas e destino seguro para suas exportações de bens manufaturados. A grande parte das contrapartidas exigidas vem na forma de abertura para acesso prioritário chinês à energia, mineração, transporte, agropecuária e outros setores-chave.

O Equador, Peru e Chile são a fachada da América Latina no Pacífico. Na região da Ásia-Pacífico existe uma competição econômica aguda entre os EUA e a China. Nestas circunstâncias, a intenção do novo presidente, Donald Trump, de torpedear o acordo TTP, em geral, faz o jogo do lado chinês. E se Trump frustrar a ratificação deste acordo, os projetos chineses para criar mecanismos alternativos de integração na região da Ásia-Pacífico irão mostrar suas novas facetas. Já neste momento eles atraem uma atenção crescente, principalmente com o Peru. Os representantes oficiais já afirmam estarem dispostos a participar nestes projetos, de fato, com a parceria da China
.
Não é a hora certa para o Brasil observar os fatos da nova geopolítica mundial canal doe olhar noutra direção,
 além do Atlântico?





quarta-feira, março 01, 2017

TERCEIRO SETOR NA AMAZÔNIA: A SOLIDARIEDADE COMO IDEOLOGIA DE MERCADO!


                                                                        NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.org

“[...] o isolamento mediante a “setoralização” de esferas
da sociedade, e a mistificação de uma sociedade civil
(definida como “Terceiro Setor), representante popular, homogênea
e sem contradições de classe (que em conjunto buscaria
o “bem comum”) e em oposição ao Estado (tido como
“primeiro setor”, supostamente burocrático, ineficiente) e
ao mercado (“segundo setor”, orientado pela procura do
lucro), contribui para facilitar a expansão da hegemonia do capital na
sociedade hoje “.
(Carlos Montaño, em Terceiro Setor: crítica ao padrão emergente de intervenção social.
Ed.Cortez, 2002).

Um amigo muito experiente, viajado e arguto observador, daí porque nada ingênuo, me questionou sobre o que há por trás do terceiro setor, mais precisamente sobre a “coincidência” do enxame de Ongs _ refiro-me a mais de 3 centenas delas _ sediadas no Estado do Amazonas onde, coincidentemente, está a mais extensa biodiversidade do planeta e o solo riquíssimo em minérios. Ainda, são Ongs patrocinadas por grandes investidores estrangeiros desde laboratórios até fundações com interesses variados em pesquisa de matéria-prima. Nos outros estados brasileiros com ênfase no Nordeste, deveras necessitado de pesquisa em projetos para desenvolvimento, não se fazem presentes tais Ongs estrangeiras, curiosamente por que a biodiversidade e o solo não possuem a mesma riqueza da Amazônia? A questão me pegou de surpresa e fui pesquisar, dado que meu trabalho de pesquisadora em experiências sociais positivas que ofereçam soluções aos conflitos sociais de comunidades carentes, me responsabiliza na busca dos   detalhes críticos e verdadeiros, desta intervenção social.

A citação do pesquisador Carlos Montaño, acima, me indicou um ponto de partida. Já há algum tempo percebi na mídia uma quase campanha publicitária, algo semelhante a uma estratégia de persuasão dos movimentos sociais reivindicatórios e locais, objetivando a um apoio quase místico, milagroso, ao terceiro setor como tábua de salvação alternativa, em substituição ao “Estado ineficiente” o primeiro setor, e ao segundo setor ou “políticas de mercado e lucro”. O terceiro setor seria, sob esta ótica de substituição alternativa,  uma saída ideológica de “neutralismo positivo” onde as comunidades pequenas, carentes, (não politizadas obviamente) se  submetem às regras ditadas pelos princípios das Ongs e por ela trabalhariam  tanto como sócias quanto como voluntárias, criando uma rede de ações crescentes nas comunidades, fortificando os interesses de desenvolvimento local, supostamente, entretanto, forçando uma abertura de porta para a industrialização e criação de mão-de-obra adequada, atropelando a cultura e produção local, sem a consciência da comunidade. O efeito desta propaganda é orientar para um mesmo fim e enquadramento, dentro dos objetivos da exploração de mão-de-obra barata, e atendimento dos interesses do patrocinador da Ong  que ali atua. Ainda, divulgam sem esforço por esta rede de informação e apoio da própria comunidade voluntária, a ideia que as Ongs substituam os partidos políticos que não estariam seriamente perseguindo os princípios de levar bem-estar e “desenvolvimento” às pequenas comunidades.

O terceiro setor estaria, nesta região amazônica, disciplinando às comunidades e levando-as à submissão aos interesses estrangeiros  ali assentados, me sugere tal “coincidência” de abundância de solidariedade. Tal fato revela que, lamentavelmente, sob o marketing distorcido da “solidariedade” está embutido o interesse real de forçar um desenvolvimento industrial às pressas no local, atropelando a cultura das comunidades e o claro desrespeito ao meio ambiente. Ainda, sem destacar as leis ambientais brasileiras.
Tão grave quanto este objetivo de considerar os países da América Latina como inevitavelmente fadados a se industrializarem no ritmo necessário aos investimentos estrangeiros, é a ideologia propagandeando a desmoralização da capacidade da população de decidir sobre seus próprios destinos, ou seja, segundo esta ótica capitalista afobada, mostra a história pós revolução industrial que cedo ou trade os países do “Terceiro Mundo” sucumbirão ao processo de industrialização que os investidores decidirem. Daí, tais comunidades “de condenados da Terra” tem mais é que submeter logo à dependência e submissão dos interesses de quem tem o poder do mercado!