sábado, abril 15, 2017

"CANAL DO PANAMÁ CHINÊS": GEOPOLÍTICA AMBICIOSA DA CHINA PARA AMÉRICA LATINA E ALAVANCA AO DESENVOLVIMENTO DO BRASIL?


                                                                  NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.org

As grandes reservas de hidrocarbonetos estão na Arábia Saudita, dependente dos EUA desde que estes expulsaram a Inglaterra de lá numa mini-guerra que aconteceu durante a 2ª Guerra Mundial. Os EUA continuam sendo, de longe, o maior investidor na Arábia Saudita e seu principal parceiro comercial, e a Arábia Saudita ajuda a apoiar a economia dos EUA através de investimentos.
Entretanto, mais da metade das exportações de petróleo sauditas vão agora para a Ásia, e seus planos de crescimento apontam para o leste. O mesmo pode ser verdade para o Iraque, país que tem as segundas maiores reservas do mundo, se conseguir se reconstruir depois da destruição massiva das sanções assassinas dos EUA e Reino Unido e da invasão. E as políticas norteamericanas estão levando o Irã, o terceiro maior produtor, na mesma direção.

A China é hoje a maior importadora do petróleo do Oriente Médio e a maior exportadora para a região, substituindo os Estados Unidos. As relações comerciais estão crescendo rápido, e dobraram nos últimos cinco anos. As implicações para a ordem mundial são significativas, à medida que a ascensão silenciosa da Organização para a Cooperação de Xangai, que inclui a maior parte da Ásia, mas baniu os EUA –potencialmente “um novo cartel de energia que envolve tanto os produtores quanto os consumidores”, observa o economista Stephen King, autor de “Losing Control: The Emerging Threats do Western Prosperity” (algo como “Perdendo o Controle: As Novas Ameaças à Prosperidade Ocidental”).

Nos círculos políticos do Ocidente e entre os comentaristas políticos, 2010 foi “o ano do Irã”. A ameaça iraniana foi considerada como o maior perigo para a ordem mundial e o foco principal da política estrangeira norte-americana, com a Europa seguindo educadamente. Reconhece-se oficialmente que a ameaça não foi militar: em vez disso, trata-se da ameaça de independência. Para manter a “estabilidade”, os EUA impuseram sanções duras sobre o Irã, mas fora a Europa, poucos estão prestando atenção. Os países não aliados –a maior parte do mundo – se opuseram fortemente à política norte-americana em relação ao Irã durante anos. A Turquia e o Paquistão estão construindo novos oleodutos até o Irã, e o comércio está aumentando. A opinião pública árabe está tão irritada com as políticas ocidentais que uma maioria até mesmo é a favor do desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã. Assim, tal conflito beneficia a China. “Os investidores chineses e comerciantes preenchem um vácuo no Irã à medida que empresas de vários outros países, especialmente da Europa, retiram-se”, informou Clayton Jones no The Christian Science Monitor.

Washington está reagindo com um certo desespero. Em agosto, o Departamento de Estado alertou que “se a China quiser fazer negócios em todo o mundo ela também terá que proteger sua própria reputação, e se ela quiser a reputação de um país que está disposto a ignorar e fugir das responsabilidades internacionais, isso terá um impacto de longo prazo... suas responsabilidades internacionais estão claras” –nomeadamente, seguir as ordens dos EUA. É improvável que os líderes chineses se impressionem com esse discurso, a linguagem de uma potência imperial tentando desesperadamente se agarrar à autoridade que já não possui mais. Uma ameaça muito maior à dominação do que o Irã é a recusa da China em  “obedecer ordens” – e de fato, como uma grande potência em crescimento que se mostra flagrantemente, rejeita-as com despeito.

A corrida chinesa rumo ao status de superpotência econômica se deveu sobretudo ao extraordinário sucesso na aplicação de uma estratégia de nação-comerciante. Isso gerou perceptível desproporção da presença chinesa em diferentes âmbitos das relações econômicas internacionais. O gigantismo comercial da China, que há dois anos converteu-se na maior exportadora/ importadora do mundo, não se fez acompanhar do papel do país como grande fonte de investimentos estrangeiros diretos. A recente visita de Li Keqiang ao Brasil e outros países sul-americanos mostra, porém, que isto está mudando. O  itinerário de Li Keqiang pela América do Sul também o levou à Colômbia, Peru e Chile. Num primeiro exame, vê-se que o interesse chinês nesses três países reproduz o padrão maior das relações China-América Latina. Por um lado, exportações de bens manufaturados chineses, com cada vez mais componentes de alta tecnologia; por outro, oferta assegurada à China de bens primários.
Tais nações, no entanto, apresentam um cálculo a mais para Pequim: todas estão engajadas, junto com o México, na chamada Aliança do Pacífico, bloco latino-americano orientado não às antigas teses de substituição de importações, mas à promoção de exportações. Peru e Chile, juntamente com México e outros países da Ásia e Oceania, estão na chamada Parceria para Comércio e Investimento do Pacífico (TPP), o que traz desafios geoeconômicos distintos de uma perspectiva de Pequim – que também deseja negociar uma grande área de cooperação econômica para o Pacífico, a Alcap- Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico. Esta foi a grande iniciativa de Xi Jinping durante a reunião de cúpula da Apec - Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico, realizada na capital chinesa. Com ela, somada ao marcado interesse na África e na América Latina, a China dá provas definitivas que sua extroversão para o século XXI.

E o Brasil nessa história?  Sabemos, apresentamos ainda pujante força de empresariado industrial, apesar de desnacionalizado e cada vez menos competitivo. Nesse sentido, nossos vizinhos sul-americanos são ainda mais vulneráveis que o Brasil a uma redução do apetite da demanda chinesa por matérias-primas ou mesmo à queda generalizada do preço internacional das commodities nos últimos anos. O Brasil ainda é a segunda maior economia emergente, menor apenas que a China, embora deva perder este posto para a Índia.  Já no que diz respeito ao México, as motivações do investimento chinês são diferentes. Na condição de membro do NAFTA - Acordo de Livre Comércio da América do Norte, e associado a tratados econômicos com a União Europeia em diferentes setores, o México tende a atrair capitais chineses que buscam acesso privilegiado a esses mercados mais maduros. A expectativa dos chineses é a de que, ao instalarem plantas produtivas no México, suas exportações a partir deste país sejam tratadas como exportações mexicanas e não norte-americanas como hoje são as das indústrias maquiadoras.

O capital chinês voltado à infraestrutura poderia ser avaliado como muito bem-vindo para o Brasil:  a China aumentaria seu papel como investidor no Brasil em ao menos três modalidades, ou seja, a natureza do investimento chinês no Brasil seria distinta, pois a maior parte do aporte de capital em empresas não visaria fazer do Brasil uma grande plataforma de exportações, mas sobretudo, focar-se na provisão ao mercado interno brasileiro. Nesse contexto, o lote de capital posto à disposição do Brasil pela China, sem dúvida, contribuiria ao fortalecimento da infraestrutura no País. Conjunturalmente, o ajuste fiscal brasileiro restringiria novos comprometimentos orçamentários e, mesmo antes da desacerto macroeconômico dos últimos anos, o Brasil já vinha com uma taxa média de investimento em torno de apenas 16% do PIB, nível bastante abaixo dos países emergentes mais dinâmicos.

Existe o aporte direto de companhias chinesas que estão comprando grande número de ativos empresariais brasileiros. Este tem sido um exemplo bem comum em diferentes elos da cadeia produtiva do agronegócio ou da energia, como enriquecimento de sementes ou painéis fotovoltaicos. Isso configura transferência de propriedade e, às vezes, desnacionalização, mas é um processo que geralmente vem acompanhado de novos investimentos na planta produtiva. Há também o investimento do tipo “greenfield” em atividades essencialmente novas, como a montadora de veículos Chery, que se instala no Estado de São Paulo. Disponibilizam-se igualmente recursos por parte de uma instituição de fomento chinesa como o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), que está criando um fundo de US$ 50 bilhões acessível por meio de instituições brasileiras. É este tipo de aporte de capital que aparentemente se orientará para viabilizar um empreendimento conjunto para produzir aço no Brasil ou ainda financiar a linha ferroviária   “Bioceânica” da costa brasileira no Atlântico, do porto de Açu, até a costa peruana no Pacífico no porto de Ilo, a fim de reduzir custos de exportações para a China. Ou o que os especialistas estão chamando de o “Canal do Panamá chinês”, já que o canal do Panamá original pertence aos EUA.

Os impactos de tal ligação ferroviária podem ser muito positivos na diminuição do custo logístico embutido, sobretudo em commodities agrícolas e minerais. Aqui, para o produtor, a economia pode chegar a 40%, montante passível de ser reinvestido no aumento da produção ou mesmo no componente de maior valor agregado para o produto final. Quanto ao período logístico interno no Brasil, estudos tem mostrado  que, se alterarmos a composição de nossa pobre infraestrutura multimodal (hoje fortemente concentrada na rodovia) em favor do transporte ferroviário de cargas, mesmo o de baixa velocidade, o tempo despendido do ponto de origem no interior do país até um porto oceânico exportador seria cortado pela metade.
Para a China, é estratégico garantir que a América Latina possa cumprir seu papel como provedora de commodities.
Ambientalistas brasileiros já se movimentam contra o projeto. Hoje, no entanto, tecnologias ferroviárias mais avançadas são de pequeno impacto sobre o ambiente. País algum do mundo teve seu patrimônio ambiental seriamente ameaçado pela expansão da malha ferroviária. No Brasil, então, essa discussão carece de histórico relevante. Há menos quilômetros de extensão ferroviária em operação hoje no Brasil do que nos Estados Unidos no início da Guerra Civil. Além disso, os líderes do projeto podem constituir fundos específicos a partir da operação lucrativa da linha, de modo a que recursos sejam revertidos em prol da sustentabilidade.
Para a China, evidente, é estratégico garantir que a América Latina possa cumprir seu papel como provedora das commodities agrícolas e minerais de que os chineses tanto necessitam. Com esse intuito, a China irrigará com pesados recursos a fraca infraestrutura dos países latinos. Pequim dimensiona pragmaticamente seus interesses na região, ou seja, a América Latina é primordialmente fonte de matérias-primas e destino seguro para suas exportações de bens manufaturados. A grande parte das contrapartidas exigidas vem na forma de abertura para acesso prioritário chinês à energia, mineração, transporte, agropecuária e outros setores-chave.

O Equador, Peru e Chile são a fachada da América Latina no Pacífico. Na região da Ásia-Pacífico existe uma competição econômica aguda entre os EUA e a China. Nestas circunstâncias, a intenção do novo presidente, Donald Trump, de torpedear o acordo TTP, em geral, faz o jogo do lado chinês. E se Trump frustrar a ratificação deste acordo, os projetos chineses para criar mecanismos alternativos de integração na região da Ásia-Pacífico irão mostrar suas novas facetas. Já neste momento eles atraem uma atenção crescente, principalmente com o Peru. Os representantes oficiais já afirmam estarem dispostos a participar nestes projetos, de fato, com a parceria da China
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Não é a hora certa para o Brasil observar os fatos da nova geopolítica mundial canal doe olhar noutra direção,
 além do Atlântico?





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Nora Peixoto