sábado, maio 27, 2017

CHINA, A FILOSOFIA DE CONFÚCIO, E A POLÍTICA ECONOMICA DO PRESIDENTE XI JINPING PARA AMÉRICA LATINA


NORA PEIXOTO, Socióloga colaboradora da AWID.ORG

Técnicos estrategistas de negócios, tem se envolvido em teorias, números e complexos problemas de exportação, especialmente para os mercados do primeiro mundo como EUA e Comunidade Europeia, onde os consumidores são extremamente exigentes. Fato é que são claramente visíveis os sinais de um deslocamento econômico dos mercados. Taxas de juros, flutuação das moedas, aumento dramático de desemprego, preços do petróleo voláteis e tensões explosivas no comércio internacional atormentam o mundo. As causas? Alguns alegam que o custo de mão-de-obra excessivamente alto é o culpado; outros apontam as deficiências no gerenciamento das empresas; e muitos incriminam as políticas econômicas dos governos, ou a falta delas. Alguns ocidentais responsabilizam os altos impostos praticados, enquanto outros acusam os chineses e sua crescente expansão pelo planeta. Os nacionalistas acusam os investimentos estrangeiros que deixam sem trabalho os trabalhadores nativos, enquanto outros condenam nações estrangeiras que fecham suas portas aos produtos importados. Poucos concordam com as causas, quanto menos com as consequências dos percalços da Economia.
Há uma dose de verdade em cada uma dessas afirmações. Mas, nenhuma delas, isoladamente ou em conjunto, ajuda a compreender o contexto econômico ou como competir dentro dele.

Então, o que é que está de fato acontecendo, questionam os estrategistas de negócios. Dizem, existem três forças de mudanças fundamentais, apesar de não exaustivas, exercendo sua influência sobre o ambiente econômico: (1) o crescimento da produção capital intensivo; (2) o ritmo acelerado das novas tecnologias; e (3) a concentração do consumo. E aí surge uma reação jacobina a essas forças: o protecionismo.
Juntas, essas correntes estão transformando os padrões de poder dentro das indústrias, entre as indústrias, na economia dos países desenvolvidos, e entre esses países, a nível regional e global.

Há umas cinco décadas a empresa “multinacional” era a forma tradicional de empresa atuante fora do país de origem, onde a matriz dominava e se encarregava de todo o planejamento, do controle sobre a produção e os empregos com respectivas políticas de salários. Os recursos eram colocados de acordo com o plano geral da multinacional, dando-se preferência ao mercado doméstico e às grandes operações, sem   levar em conta a importância estratégica da região alheia. Por exemplo, se os negócios na Tailândia eram grandes por uma coincidência qualquer, canalizavam-se para lá os melhores talentos e as prioridades mais altas.  A matriz, com isso, acabava adquirindo força demais, e os negócios passavam a ser vistos dos escritórios luxuosos de Park Avenue, de Marunouchi ou Saint James, absolutamente distantes da realidade e necessidades locais.

As empresas atuais mudaram sua estratégia de ação global e modelaram-se como “multilocais” – substituindo as multinacionais – e constituem uma abordagem eficiente, dizem os entendidos, para uma interiorização perfeita com equipes de gerentes nativos, cada um no seu próprio país. Os talentos únicos locais são encorajados à autonomia, de maneira que a empresa organizada por eles seja diferente no que se refere à admissão e promoção de pessoal, de política de salários, e adaptada perfeitamente aos costumes da comunidade local onde está inserida. Portanto o LOCAL passa a ter importância estratégica para o desenvolvimento sustentável e aceitação social.

Recentemente, o estrategista econômico Keniche Ohmae, numa de suas conferências sobre estratégias de negócios no mundo globalizado, explicou que o conceito de “ser de casa” tornou-se o princípio base de ação e eficiência das empresas multilocais. Isto porque  as preferências dos consumidores variam de cultura para cultura e os produtos devem, portanto, reagir às necessidades locais destes mercados, ou seja, desconcentrar a produção unicamente para o mercado da Tríade Comunidade Europeia,  EUA, e Japão.

Lendo sobre o Presidente da China Xi Jinping e de sua grande admiração pela filosofia de Confúcio, mais especificamente sobre  a filosofia descrita nos Analectos REN, YI, LI, XIAO e XIN ( cinco princípios morais que determinam um comportamento benevolente, isto é, o respeito aos valores diferentes dos próprios pois este respeito, precisamente, permitirá o diálogo e a interação entre pessoas, culturas e Estados), percebi que a estratégia política adotada pelas empresas “multilocais” é fundamentada pela mesma filosofia confucionista de estimular o comportamento de integração, para assim ter a harmonia entre pessoas, meio ambiente e Estado. Lincando mais adiante, percebi ainda que é possível encaixar também na mesma filosofia, o mega projeto do Presidente Xi, Rotas e Caminhos da Seda, pela  revitalização e expansão da malha ferroviária através dos continentes, como foi proposta no projeto, e, desta forma,   abrindo o canal de comunicação/integração entre várias regiões e culturas, assim alavancando a industrialização, harmonizando o desenvolvimento pela criação de novos mercados com a consequente facilitação da instalação das empresas multilocais. 

Há poucos meses o Presidente Macri da Argentina, assinou contrato de parceria com a China justamente para revitalização da malha ferroviária de aproximadamente 38 mil quilômetros de extensão, ligando desde a Patagônia até o norte e divisa com o Chile. Este, por sua vez, já está com acordos de revitalização da sua malha ferroviária assim como todos os demais países do bloco da Comunidade Andina integrando toda a costa latino-americana do Pacífico. A China segue convicta sua filosofia de integração.  

Sabemos, no espaço globalizado contemporâneo, emergem novas potências econômicas e se reorganizam as relações entre os focos tradicionais de poder. Ao mesmo tempo, sob o impacto de uma revolução tecnocientífica, todo o processo produtivo se transforma. As repercussões dessas mudanças nas regiões industrializadas ou não, nas economias urbanas e nas estruturas de emprego/salários configuram verdadeiros cataclismos. Um mundo está morrendo e um outro está nascendo! E é uma mudança irreversível. 

Embora não esteja ainda informada sobre os resultados e números com relação ao projeto Rota e Caminhos da Seda, me assalta a preocupação quanto à implantação de igual projeto na América Latina   quanto às diferenças gritantes de desenvolvimento entre uma região e outra, provocando um impacto que se desencadeie em graves conflitos sociais. Partindo da premissa que a tal  integração  é uma via  de duas mãos, ou seja, a abertura de canais de mobilidade entre o interior e os grandes centros via revitalização de toda malha ferroviária, propiciará tanto a chegada de empresas e absorção de mão de obra local ou, ao contrário, sem a contrapartida eficiente do governo numa década, pelo menos, a mão de obra escapulirá do interior para a ilusão do emprego rápido nos grandes centros, superlotando ainda mais as favelas e somando ao índice de desemprego. 
Uma das características do processo de industrialização é justamente o nomadismo da mão-de-obra não especializada.
  









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Nora Peixoto